Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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ENTREVISTA
O grito da terra
Frans Krajcberg diz que preocupações estéticas estão ausentes de sua obra e do âmbito de sua reflexão, e que vê seu trabalho artístico como manifestação do horror da humanidade ante a destruição da natureza. Por Sílvia Czapski

Pela primeira vez, no final de 2008, São Paulo abriu as portas para uma grande exposição do escultor Frans Krajcberg, que completa 88 anos neste mês de abril. Com mais de sessenta esculturas em madeira calcinada e quarenta fotografias selecionadas por ele, a mostra Natura tomou o espaçoso subsolo da Oca, no Parque Ibirapuera. Foi o evento especial de outra exposição, que ocupou os demais andares do mesmo edifício, para celebrar os sessenta anos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (mam-sp).

A leitura do Manifesto do Rio Negro pela atriz Cristiane Torloni marcou a inauguração dessa mostra, em outubro. Redigido por Pierre Restany, com parceria do próprio Krajcberg e Sepp Baendereck, durante uma viagem à Amazônia em 1978, o libelo - que prega uma nova consciência ambiental e existencial - estava estampado em uma parede da exposição. Trata-se de uma referência fundamental para quem quer enveredar pela obra do artista.

Krajcberg recebeu a reportagem da Revista 18 in loco, e caminhou entre suas esculturas e fotografias com a jornalista Sílvia Czapski e a artista plástica Sara Rosenberg, enquanto contava suas memórias e falava, em frases curtas, muitas vezes truncadas, mas sempre muito emocionado, sobre sua visão de mundo e suas ideias. Visitantes, brasileiros ou estrangeiros, de todas as idades, solitários ou em grupos, interrompiam a conversa para manifestar sua emoção, dar opiniões, pedir autógrafos, fotografá-lo junto às obras, ou simplesmente pedir uma pose com ele.

Nascido na Polônia em 1921, Krajcberg perdeu toda família na 2ª Guerra Mundial, na qual atuou como oficial da armada polonesa na Polônia e União Soviética. Depois, partiu para Stuttgart, Alemanha, onde estudou com Willi Baumeister, mestre da Bauhaus. Sua mudança para o Brasil em 1948 teve apoio do amigo Marc Chagall. Em 1957, naturalizou-se brasileiro.

Viveu em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Amazônia e, desde 1972,em Nova Viçosa, no Sul da Bahia. No sítio Natura, trabalha cercado por exuberantes remanescentes da Mata Atlântica, e com a bela vista do mar. Mas sai muito. Desde os anos 1960, divide seu tempo entre o Brasil e a Europa, especialmente Espanha e França.

Paris e Curitiba têm espaços culturais dedicados a ele. Mas seu sonho de criar um museu em Nova Viçosa foi turvado, no primeiro semestre de 2008, por um assalto a seu sítio, que o privou de bens preciosos.

Leia a seguir a entrevista concedida pelo artista.

Revista 18 Como o senhor tem sentido a reação a sua exposição, na Oca?

Frans Krajcberg A exposição só aconteceu graças à Milu Vilela (presidente do mam-sp), uma mulher muito corajosa. A alegria que tenho, quando entro lá, são as centenas de crianças que querem beijar, abraçar, querem tirar foto. Num domingo, passaram por lá 2,5 mil pessoas. Eu não fiz a exposição para ter páginas nos jornais, mas para ter diálogo. Mas a imprensa, como pode ignorar isso?

18 Mas têm saído muitas notícias...

FK Uma coisinha ou outra. Eu participei, em 2005, do Ano França-Brasil, com uma exposição individual no Museu Bagatelle. Quem me convidou foi o prefeito de Paris. Não foi autoridade brasileira. Ela foi prorrogada duas vezes, porque tinha um público enorme. Houve várias reuniões sobre ecologia. O Le Monde, jornal conhecido do mundo, fez uma análise: deu primeiro lugar para a grande exposição dos índios, no Grand Palais, uma exposição, sem dúvida, marcante. Segundo lugar: Bagatelle. Ao mesmo tempo, saiu na Folha de São Paulo: um polonês está expondo em Paris. Como agora; até hoje não se vê um artigo sobre esta exposição. Estou impressionado como São Paulo é muito fechada para mim e para si própria (esta entrevista foi realizada em novembro, antes da publicação de reportagens que discutiram as mensagens das obras de Krajcberg).

18 A educação ambiental está em moda. Como acha que se deve trabalhar para alertar as pessoas, especialmente as crianças ?

FK Eu estou vendo a juventude muito sensibilizada. Minha exposição sempre está cheia. Isso é muito positivo. Precisamos dar mais consciência. Porque você vê, aqui no Brasil, inundações cada vez piores. Ninguém pergunta por que isso está acontecendo no Brasil. Ignorando, vamos continuar destruindo. Um país tão grande, tão rico... e uma miséria que dá para chorar. Não é justo.

18 O que o senhor mostraria de sua obra a uma criança que vem da escola?

FK Não é mostrar a obra, mas a natureza, que é riquíssima. A criança costuma ver e respeitar. Isso se chama educar. Não tem no mundo outro país com tanta riqueza como nas florestas da Amazônia. Precisa destruir? Expulsar os habitantes? Não. O país poderia aproveitar, facilitar para que brasileiros conheçam o Brasil. São muito raros os que conhecem. Os políticos, nem a região deles, eles conhecem. E fazem as leis mais absurdas do mundo. E nós somos passivos. O mundo, o planeta precisa da Amazônia. Precisamos de oxigênio.

18 E há outros ecossistemas, biomas além da Amazônia, também sendo destruídos...

FK Dá medo ver a realidade. A humanidade aumentou muito. E vai aumentar. A onu está prevendo que, no final deste século, vamos chegar a 14 bilhões de habitantes. De onde vai vir comida? A gente vê a cidade crescendo e as terras para cultivar diminuindo. A população precisa viver. Eu lembro como hoje: 45 milhões de habitantes no Brasil. Chegamos a 180 milhões! Que estrutura mudou para essa gente? Nenhuma! Como a gente vai suportar viver, as cidades crescendo, a população sem trabalho, sem ter onde morar e comer. É assunto real, mas ninguém discute. Mesma coisa na Amazônia.

18 O senhor mencionou discussões internacionais...

FK Eu participo de reuniões internacionais. Participo de um fórum global. O mundo está acordando para a realidade. O alarme é para salvar o planeta, para a humanidade poder sobreviver. Se continuar assim, o planeta vai se vingar. Precisamos corrigir muita coisa para viver em paz com ele. No mundo, fala-se muito sobre o planeta e sobre a Amazônia. Precisamos ter consciência do que está acontecendo nas florestas. As queimadas fazem mal à saúde do planeta. A Amazônia vai desaparecer se continuar assim. E o mais grave é que as queimadas não são árvores, há o povo que mora lá. A violência com esse povo cada vez é pior. Aqui no Brasil estamos passivos. Parem de ir à Amazônia, plantar soja transgênica, vender para a China para engordar os porcos lá, enquanto o povo morre de fome! Escandaloso, isso. Onde estão as vozes de gente consciente sobre esse assunto? O movimento sobre ecologia, é tudo fachada. Estou vendo a minha exposição. Até hoje, ninguém da ecologia se interessou em aproveitar para dialogar sobre o assunto.

18 O senhor ficou quanto tempo na Amazônia? Onde viveu lá?

FK Se eu contar histórias sobre a Amazônia, ninguém vai acreditar. Uma vez, vi nuvens de urubus. Fiz uma foto, de olhos fechados. Vocês não podem imaginar que cena. Seis índios pendurados numa árvore, com milhares de urubus em cima. Foi no tempo militar. No Rio de Janeiro, dois policiais vieram à minha casa. "Entregue essa foto e nunca mais fale sobre essa foto". Chegou a democracia. Fiz uma exposição na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Um jornalista perguntou sobre essa foto, que todas as agências que viam nunca queriam publicar, porque é muito cruel. Chegou um senhor bem-vestido: "Sou da polícia. Pela segunda e última vez, um aviso. O senhor entrega essa foto e nunca mais fala sobre esse assunto". Eu sei uma coisa: nunca falei tanto sobre essa foto.

18 O senhor tem essa foto?

FK Tenho. Nem dá para ver duas vezes. Porque é muito cruel. Isso acontece muito. Os índios jogados, corpo velho na rua, expulso das terras. Falam das árvores que foram queimadas. Mas dos índios que foram queimados não falam. É triste ver tudo isso.

18 Como é sua relação com o mercado de arte? O senhor não faz obras para serem vendidas?

FK É verdade, nem gosto da palavra arte. Porque meu trabalho é meu grito. Gostaria de gritar cada dia mais alto, mais violento contra a barbárie praticada. Como posso fazer? Se gritar na rua, me levam ao hospital de doidos [risos]. O que eu gostaria de fazer é isso. Durante a guerra, todas as pontes para o exército passar, quem construiu fui eu. Perdi mais de duzentos soldados. Quando alguém pisou Varsóvia, foram meus pés. No Gueto de Varsóvia só tinha pedra. No campo de concentração, na Hungria, vi montanhas de lixo, homens jogados como lixo. Depois da guerra eu queria fugir dos homens. Mas homens, tem em todo lugar do planeta. Mesmo assim, muitas vezes me isolei.

18 O senhor consegue fazer beleza a partir dessa destruição, do seu grito. Qual é, na sua visão, a relação entre arte e beleza?

FK Meu grito não é estético. Eu não procuro fazer isso. Meu trabalho é querer gritar, protestar contra esse barbarismo que o homem pratica. Se não consigo, não é falta de vontade.

18 As crianças que veem a mostra entendem a mensagem?

FK A professora fala com eles. Não sou para isso. Eu posso contar a minha vida. Por que essa revolta contra o homem? Passei quatro anos e meio na guerra, você vai compreender. Nem eu sei como sobrevivi. Quem ficou vivo da minha família? Só eu, de uma família de certamente 150 pessoas. Por quê? Eu estava lutando. Oficial do Exército. A libertação dos húngaros me marcou pelo resto da vida. Essa imagem não sai de mim. Como esses índios, pendurados nas árvores, com centenas de urubus. Como esquecer? Como parar com o barbarismo que homens praticam contra outros homens? A única coisa que posso fazer é ficar revoltado contra essa gente que o pratica. Eu tenho que lutar contra esse barbarismo. Eu saí da Polônia e jurei que nunca mais vou pisar nessa terra.

18 Nunca mais pisou na Polônia?

FK Tem muita coisa para contar. Fui amigo intimo do Mordechai Anilevich, chefe da luta armada contra os alemães no Gueto de Varsóvia. Nós nos separamos. E eu devia ir para a Romênia. Mas fiquei doente e me levaram ao hospital em Minsk, na Bielorrússia, onde fiquei três meses. Perdi contato com ele. Mas eu sei que todos eles se mataram para não se entregar à Alemanha. Foi a luta mais conhecida, única luta, com Anilevich, chefe da luta no gueto. Grande amigo. Eu fiz o retrato dele. Entreguei à Associação Judaica no Rio. Eles venderam esse retrato. Eu fiz de tudo para comprar esse retrato um ano atrás.

18 Conhecemos pouco de sua biografia. O senhor nasceu na Polônia, na 2ª Guerra Mundial lutou no Exército, perdeu a família ...

FK Tem muita história. Minha mãe foi líder do Partido Comunista, que estava proibido. Ela estava sempre na prisão. Fui educado mais com meus tios, mas tinha uma grande paixão pela minha mãe. Quando a guerra começou, soube que os alemães invadiram a cadeia, fuzilaram e enforcaram as pessoas. Minha mãe foi enforcada. Consegui chegar até a prisão, descobri a sala, mas não sabia como tirá-la da forca. Vi que os alemães chegaram de novo. A única coisa que ela tinha era um colar com o símbolo do partido. Arranquei e consegui fugir da prisão. Carreguei esse colar do final de 1939 até meses atrás. Esse colar foi-me roubado. E uma medalha que Stalin lhe deu pessoalmente. E três quadros. Um desenho que Chagall me deu. Foi Chagall quem me mandou para o Brasil. E agora eu não tenho defesa para viver. Me roubaram tudo... para construir um museu, acabou. Mas minha luta pelo planeta continua. Se aceitam ou não, isso é assunto dos outros; eu não posso parar. A defesa da vida é o principal do meu ser. É a minha obra. Só isso: sou contra o barbarismo que o homem pratica contra o homem. Acho que a gente não tem direito de ser passivo.

18 E por quê?

FK E aí pergunto. Eu tenho direito ainda de viver? No Sul da Bahia, não. É a primeira vez que vejo antissemitismo no Brasil. Telefonam e dizem: não queremos judeus nesta região. São telefonemas anônimos.

18 Muitos artistas têm dificuldade de sobreviver no Brasil. O senhor vive com sua arte, que é um grito. Temos de concluir que há gente que gosta do que faz, o apóia.

FK Minha revolta é muito mais forte comigo mesmo que com o trabalho que estou fazendo. Como fazer que esse trabalho seja um grito, manifeste a revolta? Não é fácil.

18 O que é religião para o senhor?

FK Sou judeu, nasci judeu, nunca, até minha morte, vou negar que sou judeu. Mas religião, não quero saber de religião. Religiões separam os homens. Todos eles. História da Religião, é tudo inventado. Eu pessoalmente não acredito.

18 O senhor tem alguma obra em Israel?

FK Fiz uma exposição em Jerusalém. Achei que Israel me ignora. Mas não tem importância. Eu estou vivendo num lugar que se chama Brasil, o primeiro lugar em que vi que posso viver, só viver, trabalhar, participar.

18 Qual é o melhor lugar no Brasil?

FK Curitiba. Tem muita abertura. Quando Jaime Lerner governou, deu maior abertura para a ecologia. Foi ele quem quis meus trabalhos lá. Nunca pedi nem que me pagassem a passagem até Curitiba. Tem 110 esculturas minhas lá, doadas.

18 E a visitação lá como é?

FK Muito grande. Perto de meu espaço tem um grande jardim botânico. Jaime Lerner fez tudo. E funcionava internacionalmente. Depois começaram a entrar os outros...

18 É comum, quando outro partido entra, querer negar o que se fez antes.

FK Não se deve esquecer uma coisa. Na entrada deste século estamos sem um líder político no mundo. Arte também precisa da política, precisa observar a vida e a evolução do homem. Senão, o que faz? Destinar-se ao comércio? Repetir formas? O que significa isso? Nada.

18 Que mensagem daria a um jovem artista plástico hoje?

FK É difícil analisar que artes plásticas vão abrir a porta para este novo século. No começo do cubismo, que chegou da Rússia, os artistas participaram politicamente. Muitos estavam na Sibéria. Por que foi aceito? Olhe como foi a entrada no século 20. Ele mudou completamente a vida humana neste planeta, a produção industrial, tudo. Eu participei. A primeira lâmpada que acendeu a luz. O telefone parecia um trator para falar. Toda a evolução tecnológica foi impressionante. Mas o desenho estava em baixa. A arquitetura estava desmoralizada. A miséria na Alemanha, greves, tudo isso criou base para a Bauhaus, o expressionismo alemão e muito outros movimentos. Foi autêntico, no momento. Só que o século 20 foi o maior desastre. Foi dominado só pelo mercado. Depois, não vimos outras manifestações de arte. O novo século, aí está. Tem três caminhos. Que arte vai ser feita, ninguém pode prever.

18 Quais as perspectivas?

FK Quais são os sintomas da porta de entrada do século 21? Primeiro, a grande evolução tecnológica e científica. Segundo, o absoluto vazio político. Não tem um líder hoje. Terceiro, pela primeira vez, a humanidade fala da saúde do planeta. Isso é mundial. Estamos aqui: abra a porta e bem-vindo! E no Brasil? Até hoje não abriram a porta. Com a fotografia, é o contrário. Pela primeira vez na história da arte, a fotografia é arte plena. Porque foi sempre considerada arte menor. Ela foi a ruptura no final do século 20.

18 Ao mesmo tempo, qualquer telefone celular tem câmera fotográfica. Todo mundo está registrando. Será que as pessoas começam a enxergar, pela fotografia, sua realidade?

FK Quantas máquinas fotográficas se produzem todo dia? É marcante. E, pela primeira vez, a gente vê que quem abre a porta é a fotografia. Temos fotógrafos impressionantes, que participam, mostrando o planeta. O cinema, as artes plásticas, não fizeram isso.

18 Como é seu processo de trabalho. Vê uma raiz, acrescenta coisas?

FK Viajo muito, filmo, fotografo. Tenho milhares de fotos. Quando passou a queimada, estou lá. Vendo que o fogo deixou um pedaço bonito, pego e levo de caminhão para o Sul da Bahia, para trabalhar. Na realidade, continuo contra essa barbárie que estão praticando com o planeta. Não se deve esquecer uma coisa. O século 20 foi a época mais bárbara da história deste planeta, e da humanidade. Quais são os artistas que participaram para denunciar? Só temos um quadro, Guernica, de Picasso. Todo mundo estava preso ao mercado.

18 O senhor tem uma visão otimista ou pessimista?

FK Até agora, eu sou muito pessimista. Quem vai abrir essa porta? Com o quê?

18 O que seria o ideal, que o senhor sonha para suas obras?

FK Não faço nada se não for ecológico, não faço nada se não se discutir sobre a saúde do planeta.

18 O manifesto do Rio Negro já tratava desse assunto...

FK Olhe, aqui no Brasil, não. Mas hoje em dia, é assunto mundial. No meu espaço em Paris, o manifesto do Rio Negro está presente todos os dias.

18 O senhor gostaria de voltar a morar na França?

FK Eu não gosto da vida urbana. Mas Paris é uma cidade que aguento dois meses [risos]. Não tem outra cidade igual no mundo.

18 O lugar de Krajcberg é na natureza?

FK Precisamos ter consciência. O mundo está acordando. Precisamos falar com o público brasileiro. Para não dormir um sono muito pesado. Você já viu alguém comprar terreno na Amazônia? Durante três dias, viajei pelo rio Purus e vi a mesma placa: terra particular, entrada proibida. Que país na Europa é tão grande como essas terras que o indivíduo pegou? É muito importante para a gente dar essa ênfase, para a saúde do planeta; fazer alguma coisa para salvar este planeta. De resto, o que posso falar mais?

Sílvia Czapski é jornalista

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