Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
CENTRO DA CULTURA JUDAICA
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OPINIÃO
A ilusão da paz possível com o Hamas
Para Luis Dolhnikoff, o movimento que governa Gaza impedirá qualquer perspectiva de acordo de paz no Oriente Médio - promovido por Barack Obama ou seja lá por quem for

Antes de mais nada, e negando aparentemente o título acima, explicito acreditar na sinceridade política de Barack Obama e no que ele representa de mudanças sensíveis de rumo, se mais não fora por já tê-los demonstrado nos primeiros atos e falas no governo (e em detalhes como a referência aos ateus no discurso de posse, ao lado de cristãos, judeus, muçulmanos etc., fato inédito na história, além de radicalmente moderno e democrático). Meu título, na verdade, refere-se a certas expectativas. Por exemplo: ele fracassará ao tentar retomar o processo de paz no Oriente Médio.

O motivo por que fracassará é a impossibilidade de ser bem-sucedido. E a impossibilidade de ser bem-sucedido atende pelo nome de Hamas. Cuja análise detida é, portanto, fundamental.

Muitos analistas, entre ingênuos e mal-intencionados, defendem que o Hamas, apesar de ser o responsável assumido por inúmeros ataques terroristas em Israel, além de pelo bombardeio diário do país com foguetes (o que, naturalmente, é um ato de guerra), deve ser considerado um interlocutor político legítimo por ter vencido eleições legítimas. Outros, mais pragmáticos, o consideram assim porque não pode ser simplesmente ignorado. Estão igualmente errados, ainda que errados de modo diferente.

O mero fato de vencer uma eleição não fornece legitimidade automática ou necessária: pois as eleições, como modo de chegar ao poder, são o princípio, não o fim da legitimidade democrática. O fim é o respeito à própria democracia - o que o Hamas não fez, não faz e não fará. O Hamas venceu eleições parlamentares, o que o obrigava a um governo compartilhado com a Fatah. Mas, em seguida, deu um golpe de Estado em Gaza, expulsando a Fatah e implementando uma ditadura de partido único. Portanto, o Hamas perdeu toda a legitimidade inicial outorgada pelas eleições. O argumento de sua legitimidade é, assim, falso (alguns insistem em que o problema começou com a recusa de Israel e dos países ocidentais em reconhecer o governo integrado pelo Hamas, apesar de legitimamente eleito, o que seria injusto e incongruente; porém, a recusa do Hamas em reconhecer Israel, com todas as consequências políticas, contraria os próprios termos de criação da Autoridade Nacional Palestina, no contexto dos Acordos de Oslo. Portanto, o Hamas sequer deveria ter tido o direito de concorrer às eleições para a anp. De qualquer maneira, seu golpe em Gaza torna tudo isso ocioso).

O argumento pragmático, por outro lado, afirma que o Hamas é uma força política real, com apoio popular real, e o governo de fato em Gaza. Portanto, não pode ser ignorado em nenhum acordo político abrangente envolvendo a região. Principalmente o mais abrangente deles, o processo de paz. Sem o Hamas não há, então, processo de paz verossímil. O problema é que, com o Hamas, não há processo de paz possível. Compreendê-lo é compreender por que Obama, ou qualquer outro em seu lugar, fracassará.

Foi o historiador Bernard Lewis, se não me engano, quem sintetizou a estratégia eleitoral dos partidos islâmicos numa frase lapidar: "Um homem, um voto, uma vez". Partidos islâmicos não existem para cumprir um mandato eleitoral. Sua razão de ser é implementar o governo islâmico. Portanto, existem para extinguir a democracia, onde houver, ou para substituir a ditadura secular de plantão. O golpe de Estado do Hamas em Gaza não foi, portanto, como se costuma pensar, um mero incidente na disputa de poder com a Fatah, mas a realização inicial de seu objetivo político.

O motivo pelo qual o Hamas não oficializou a ditadura islâmica é sua fraqueza. Decorrente, primeiro, das pressões internacionais (incluindo países árabes de governos seculares, como o Egito); segundo, do próprio modo como conquistou o poder, a via eleitoral; terceiro, da existência da Fatah na Cisjordânia, e, quarto, da contradição de seu objetivo político com os objetivos históricos da população.

O movimento palestino, nascido nos anos 60, é historicamente nacionalista. Os palestinos, portanto, esperam a criação de um Estado palestino, não de um Estado islâmico. E as coisas são excludentes, não porque um Estado palestino não possa eventualmente ser islâmico, já que se trata de uma população muçulmana, mas porque a lógica política para a construção desses dois Estados é distinta.

O Hamas não é, como se crê, mera consequência do fracasso histórico da Fatah. Decorrente, por sua vez, de o falecido Iasser Arafat ter sido, além de inepto, pequeno. Assim, quando a história lhe deu a oportunidade, a partir dos Acordos de Oslo, de demonstrar a dimensão de grande líder nacional, como Gandhi e Mandela, e para tanto fazer escolhas políticas difíceis, mas necessárias, além da chance paralela de implementar um governo autônomo na Cisjordânia e em Gaza, ele foi covarde no primeiro caso e inepto no segundo. O resultado, depois do impasse decorrente de sua recusa final em Camp David, e de sua opção por apoiar a primeira intifada, a fim de renegociar desde uma posição de força, foi o fim do processo de Oslo bem como do desenvolvimento da Autoridade Nacional Palestina. Esse duplo beco sem saída, ao mesmo tempo externo e interno, levou à emergência do Hamas. Mas não ao surgimento do Hamas. Mesmo porque o normal seria o fracasso da Fatah levar à criação de um partido que tomasse para si seu projeto político histórico. Se Gandhi fracassasse, mudar-se-iam seus métodos, não o objetivo da independência indiana. Não é este o caso. Os objetivos do Hamas não são os da Fatah. O fracasso da Fatah, portanto, não explica o Hamas - que tem por objetivo não a criação de um Estado palestino, mas sim de um Estado islâmico para os palestinos.

O Hamas é, na verdade, o aggiornamento - já que não se pode falar em modernização - do espectro político palestino. Este se definiu, inicialmente, antes da Revolução Iraniana de 1979. Os grupos políticos que o integravam eram, portanto, todos variações de um mesmo tema, a busca da "soberania popular" nos moldes do nacionalismo clássico. Com a Revolução Iraniana, uma velha ideologia política, a do governo da lei religiosa, historicamente presente no mundo muçulmano, porém modernizada no início do século 20 pela Irmandade Muçulmana no Egito, volta ao centro da cena, o que seria em seguida reforçado pela ascensão do Talibã no Afeganistão. Essa ideologia, então, se espalha. Assim, na Argélia existem hoje a Frente Islâmica de Salvação (fis) e o Grupo Islâmico Armado (gia); no Marrocos, os salafitas; no Egito, a própria Irmandade Muçulmana; no Líbano, o Hezbolá; no Iraque, o "exército" do Madi; no Afeganistão, o Talibã e a Al Qaeda, no Paquistão e na Indonésia, inúmeros grupos, enquanto na Arábia Saudita, no Irã e no Sudão, a lei religiosa já é um fato. O Hamas é, portanto, a manifestação palestina de um fenômeno universal, o projeto de poder islâmico nos países muçulmanos.

No caso particular palestino, isso significa necessariamente incluir, na construção do Estado, o viés islâmico da Dar al Islam, a "Terra do Islã", entendida como o território que já se submeteu (islam, em árabe) à lei de Deus. E esta, ao contrário da lei dos homens, não pode ser revogada. Daí não se poder aceitar que um território, uma região, um país, uma vez muçulmano, deixe de sê-lo. É por isso que o Hamas se recusa a reconhecer Israel. É por isso que o Hamas não pode reconhecer Israel. E é por isso que seu objetivo estratégico não contempla a fórmula dos dois Estados, mas sim um único, em toda a "Palestina", e devidamente islâmico. É mais fácil o papa passar a defender a legalização do aborto do que o Hamas reconhecer (ou sequer aceitar) Israel. Naturalmente, sem isto não faz nenhum sentido um processo de paz que vise a resolução definitiva do conflito.

O Hamas dificilmente será eliminado. Pois ele é, assim, o representante local de uma tendência política mundial, como os partido comunistas nacionais durante a Guerra Fria. Com o fim da urss, os partidos comunistas nacionais simplesmente desapareceram, em sua maioria, ou viraram excrescências históricas quase folclóricas. Mas enquanto existiu a "via socialista", havia em quase todos os países um grupo político local que a representava. É o mesmo caso da "via islâmica" no mundo muçulmano. A diferença é que, ao contrário do socialismo, o islã como ideologia e projeto de poder não está, infelizmente, em descenso, mas em ascensão. No caso palestino, essa ideologia é imiscível com qualquer processo de paz. Por isso não pode haver processo de paz com o Hamas. No entanto, sem o Hamas tampouco pode haver processo de paz, por ser ele o poder de fato em Gaza. Portanto, não haverá processo de paz.

O islã como ideologia política, afinal, não representa um problema somente pelo niilismo escatológico de grupos como a Al Qaeda. Ele é um fenômeno mais geral, mais profundo e mais problemático do que o terrorismo islâmico, que na verdade não passa do meio de alguns grupos para atingir o mesmo objetivo, pela tática indireta de tentar enfraquecer aqueles que veem, com razão, como seus grandes antagonistas, os eua, o Ocidente e a modernidade laica. No caso dos pequenos antagonistas, ou seja, dos poderes locais, os métodos dos grupos islâmicos incluem o mesmo terrorismo de massa (guerra civil argelina, Iraque, homens-bomba palestinos), o terrorismo político clássico (assassinato de Sadat) e as eleições (caso do Hamas e da tentativa da fis argelina).

O processo de paz no Oriente Médio, em suma, fracassará com Obama, assim como fracassaria com qualquer outro, porque provavelmente já perdeu sua janela de oportunidade histórica. A consequência é a insolubilidade do problema.

Além de seu agravamento. Pois se o Hamas tomar o poder também na Cisjordânia (pelo crescente enfraquecimento da Fatah), mesmo o muro de separação se tornará obsoleto (assim como a retirada israelense de Gaza resultou inútil). Tão obsoleto quanto, na presença do islã como projeto político, a possibilidade de paz (pois ainda que, numa hipótese inverossímil, o Hamas abandonasse seu viés islâmico, outro grupo emergiria para ocupar seu lugar - afinal, não foi um acaso ele ter sido fundado por um membro da Irmandade Muçulmana, o felizmente falecido xeque Ahmed Yassin).

A única saída para o impasse seria o esmagamento do Hamas pela Fatah, assim como a repressão de qualquer outro grupo islâmico palestino, em nome da ameaça estrutural que representam para o processo democrático. Mas então a verdadeira dimensão do conflito se delineia. Pois ao contrário do que afirmam os que pretendem, contra os fatos, responsabilizar Israel unilateralmente por todos os males e todos os erros, o conflito sempre foi, não palestino-israelense, mas árabe-israelense. Sem a repressão aos grupos islâmicos, torna-se agora islâmico-israelense. O Hamas é apoiado pelo Irã, além da Síria. Isto, por si só, não impede sua eliminação, apesar de dificultá-la. O problema maior são a alternativa ideológica, ou seja, a própria existência da "via islâmica", que permanecerá aberta, e as pressões ocidentais por certo formalismo democrático palestino, que leva à aceitação da participação de grupos como o Hamas em eleições, apesar de a democracia não poder, obviamente, ser construída por grupos que a negam. A construção de uma verdadeira democracia palestina passa pela destruição do Hamas. Assim como, não por acaso, a retomada dos processos de paz. Até lá, como diria o grande analista político chamado William Shakespeare, será muito barulho por nada.

Luis Dolhnikoff é escritor e ensaísta


© seier+seier+seier


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