Antes de mais nada, e negando
aparentemente o título acima, explicito acreditar na sinceridade política de Barack Obama e no que ele
representa de mudanças sensíveis de rumo, se mais não fora por já tê-los
demonstrado nos primeiros atos e falas no governo (e em detalhes como a referência
aos ateus no discurso de posse, ao lado de cristãos, judeus, muçulmanos etc.,
fato inédito na história, além de radicalmente moderno e democrático). Meu
título, na verdade, refere-se a certas expectativas. Por exemplo: ele
fracassará ao tentar retomar o processo de paz no Oriente Médio.
O motivo por que fracassará é a impossibilidade de ser
bem-sucedido. E a impossibilidade de ser bem-sucedido atende pelo nome de Hamas. Cuja análise detida é, portanto, fundamental.
Muitos analistas, entre ingênuos e mal-intencionados,
defendem que o Hamas, apesar de ser o responsável
assumido por inúmeros ataques terroristas em Israel, além de pelo bombardeio
diário do país com foguetes (o que, naturalmente, é um ato de guerra), deve ser
considerado um interlocutor político legítimo por ter vencido eleições
legítimas. Outros, mais pragmáticos, o consideram assim porque não pode ser
simplesmente ignorado. Estão igualmente errados, ainda que errados de modo
diferente.
O mero fato de vencer uma eleição não fornece legitimidade
automática ou necessária: pois as eleições, como modo de chegar ao poder, são o princípio, não o fim da legitimidade democrática. O
fim é o respeito à própria democracia - o que o Hamas
não fez, não faz e não fará. O Hamas venceu eleições
parlamentares, o que o obrigava a um governo compartilhado com a Fatah. Mas, em seguida, deu um golpe de Estado em Gaza,
expulsando a Fatah e implementando
uma ditadura de partido único. Portanto, o Hamas
perdeu toda a legitimidade inicial outorgada pelas eleições. O argumento de sua
legitimidade é, assim, falso (alguns insistem em que o problema começou com a
recusa de Israel e dos países ocidentais em reconhecer o governo integrado pelo
Hamas, apesar de legitimamente eleito, o que seria
injusto e incongruente; porém, a recusa do Hamas em reconhecer Israel,
com todas as consequências políticas, contraria os
próprios termos de criação da Autoridade Nacional Palestina, no contexto dos
Acordos de Oslo. Portanto, o Hamas sequer deveria ter
tido o direito de concorrer às eleições para a anp.
De qualquer maneira, seu golpe em Gaza torna tudo isso ocioso).
O argumento pragmático, por outro lado, afirma que o Hamas é uma força política real, com apoio popular real, e
o governo de fato em
Gaza. Portanto, não pode ser ignorado em nenhum acordo
político abrangente envolvendo a região. Principalmente o mais abrangente
deles, o processo de paz. Sem o Hamas não há, então,
processo de paz verossímil. O problema é que, com o Hamas,
não há processo de paz possível. Compreendê-lo é compreender por que Obama, ou qualquer outro em seu lugar, fracassará.
Foi o historiador Bernard Lewis, se não me engano, quem
sintetizou a estratégia eleitoral dos partidos islâmicos numa frase lapidar:
"Um homem, um voto, uma vez". Partidos islâmicos não existem para cumprir um
mandato eleitoral. Sua razão de ser é implementar o
governo islâmico. Portanto, existem para extinguir a democracia, onde houver,
ou para substituir a ditadura secular de plantão. O golpe de Estado do Hamas em Gaza não foi, portanto, como se costuma pensar, um
mero incidente na disputa de poder com a Fatah, mas a
realização inicial de seu objetivo político.
O motivo pelo qual o Hamas não
oficializou a ditadura islâmica é sua fraqueza. Decorrente, primeiro, das
pressões internacionais (incluindo países árabes de governos seculares, como o
Egito); segundo, do próprio modo como conquistou o poder, a via eleitoral;
terceiro, da existência da Fatah na Cisjordânia, e,
quarto, da contradição de seu objetivo político com os objetivos históricos da
população.
O movimento palestino, nascido nos anos 60, é historicamente
nacionalista. Os palestinos, portanto, esperam a criação de um Estado
palestino, não de um Estado islâmico. E as coisas são excludentes, não porque
um Estado palestino não possa eventualmente ser islâmico, já que se trata de
uma população muçulmana, mas porque a lógica política para a construção desses
dois Estados é distinta.
O Hamas não é, como se crê, mera consequência do fracasso
histórico da Fatah. Decorrente, por sua vez, de o
falecido Iasser Arafat ter sido, além de inepto,
pequeno. Assim, quando a história lhe deu a oportunidade, a partir dos Acordos
de Oslo, de demonstrar a dimensão de grande líder nacional, como Gandhi e
Mandela, e para tanto fazer escolhas políticas difíceis, mas necessárias, além
da chance paralela de implementar um governo autônomo
na Cisjordânia e em Gaza, ele foi covarde no primeiro caso e inepto no segundo.
O resultado, depois do impasse decorrente de sua recusa final em Camp David,
e de sua opção por apoiar a primeira intifada, a fim
de renegociar desde uma posição de força, foi o fim do processo de Oslo bem
como do desenvolvimento da Autoridade Nacional Palestina. Esse duplo beco sem
saída, ao mesmo tempo externo e interno, levou à emergência do Hamas. Mas não ao surgimento do Hamas.
Mesmo porque o normal seria o fracasso da Fatah levar
à criação de um partido que tomasse para si seu projeto político histórico. Se
Gandhi fracassasse, mudar-se-iam seus métodos, não o
objetivo da independência indiana. Não é este o caso. Os objetivos do Hamas não são os da Fatah. O
fracasso da Fatah, portanto, não explica o Hamas - que tem por objetivo não a criação de um Estado
palestino, mas sim de um Estado islâmico para os palestinos.
O Hamas é, na verdade, o aggiornamento - já que não se pode
falar em modernização - do espectro político palestino. Este se definiu,
inicialmente, antes da Revolução Iraniana de 1979. Os grupos políticos que o
integravam eram, portanto, todos variações de um mesmo
tema, a busca da "soberania popular" nos moldes do nacionalismo clássico. Com a
Revolução Iraniana, uma velha ideologia política, a do governo da lei
religiosa, historicamente presente no mundo muçulmano, porém modernizada no
início do século 20 pela Irmandade Muçulmana no Egito, volta ao centro da cena,
o que seria em seguida reforçado pela ascensão do Talibã
no Afeganistão. Essa ideologia, então, se espalha. Assim, na Argélia existem
hoje a Frente Islâmica de Salvação (fis) e o Grupo
Islâmico Armado (gia); no Marrocos, os salafitas; no Egito, a própria Irmandade Muçulmana; no
Líbano, o Hezbolá; no Iraque, o "exército" do Madi; no Afeganistão, o Talibã e
a Al Qaeda, no Paquistão e na Indonésia, inúmeros
grupos, enquanto na Arábia Saudita, no Irã e no Sudão, a lei religiosa já é um
fato. O Hamas é, portanto, a manifestação palestina
de um fenômeno universal, o projeto de poder islâmico nos países muçulmanos.
No caso particular palestino, isso significa necessariamente
incluir, na construção do Estado, o viés islâmico da Dar al Islam,
a "Terra do Islã", entendida como o território que já se submeteu (islam, em árabe) à lei de Deus. E esta, ao contrário da lei
dos homens, não pode ser revogada. Daí não se poder aceitar que um território,
uma região, um país, uma vez muçulmano, deixe de sê-lo. É por isso que o Hamas se recusa a reconhecer Israel. É por isso que o Hamas não pode reconhecer Israel. E é por isso que seu
objetivo estratégico não contempla a fórmula dos dois Estados, mas sim um
único, em toda a "Palestina", e devidamente islâmico.
É mais fácil o papa passar a defender a legalização do aborto do que o Hamas reconhecer (ou sequer aceitar) Israel. Naturalmente,
sem isto não faz nenhum sentido um processo de paz que vise a
resolução definitiva do conflito.
O Hamas dificilmente será
eliminado. Pois ele é, assim, o representante local de uma tendência política
mundial, como os partido comunistas nacionais durante a Guerra Fria. Com o fim
da urss, os partidos comunistas nacionais
simplesmente desapareceram, em sua maioria, ou viraram excrescências históricas
quase folclóricas. Mas enquanto existiu a "via socialista", havia em quase
todos os países um grupo político local que a representava. É o mesmo caso da
"via islâmica" no mundo muçulmano. A diferença é que, ao contrário do socialismo,
o islã como ideologia e projeto de poder não está, infelizmente, em descenso, mas em ascensão. No caso palestino, essa ideologia é
imiscível com qualquer processo de paz. Por isso não pode haver processo de paz
com o Hamas. No entanto, sem o Hamas
tampouco pode haver processo de paz, por ser ele o poder de fato em Gaza. Portanto, não
haverá processo de paz.
O islã como ideologia política, afinal, não representa um
problema somente pelo niilismo escatológico de grupos como a Al Qaeda. Ele é um fenômeno mais geral, mais profundo e mais
problemático do que o terrorismo islâmico, que na verdade não passa do meio de
alguns grupos para atingir o mesmo objetivo, pela tática indireta de tentar
enfraquecer aqueles que veem, com razão, como seus
grandes antagonistas, os eua, o Ocidente e a
modernidade laica. No caso dos pequenos antagonistas, ou seja, dos poderes
locais, os métodos dos grupos islâmicos incluem o mesmo terrorismo de massa
(guerra civil argelina, Iraque, homens-bomba palestinos), o terrorismo político
clássico (assassinato de Sadat) e as eleições (caso
do Hamas e da tentativa da fis
argelina).
O processo de paz no Oriente Médio, em suma, fracassará com Obama, assim como fracassaria com qualquer outro, porque
provavelmente já perdeu sua janela de oportunidade histórica. A consequência é a insolubilidade do problema.
Além de seu agravamento. Pois se o Hamas
tomar o poder também na Cisjordânia (pelo crescente enfraquecimento da Fatah), mesmo o muro de separação se tornará obsoleto
(assim como a retirada israelense de Gaza resultou inútil). Tão obsoleto
quanto, na presença do islã como projeto político, a possibilidade de paz (pois
ainda que, numa hipótese inverossímil, o Hamas
abandonasse seu viés islâmico, outro grupo emergiria para ocupar seu lugar -
afinal, não foi um acaso ele ter sido fundado por um membro da Irmandade
Muçulmana, o felizmente falecido xeque Ahmed Yassin).
A única saída para o impasse seria o esmagamento do Hamas pela Fatah, assim como a
repressão de qualquer outro grupo islâmico palestino, em nome da ameaça
estrutural que representam para o processo democrático. Mas então a verdadeira
dimensão do conflito se delineia. Pois ao contrário do que afirmam os que
pretendem, contra os fatos, responsabilizar Israel unilateralmente por todos os
males e todos os erros, o conflito sempre foi, não
palestino-israelense, mas árabe-israelense. Sem a repressão aos grupos
islâmicos, torna-se agora islâmico-israelense. O Hamas
é apoiado pelo Irã, além da Síria. Isto, por si só, não impede sua eliminação,
apesar de dificultá-la. O problema maior são a alternativa ideológica, ou seja,
a própria existência da "via islâmica", que permanecerá aberta, e as pressões
ocidentais por certo formalismo democrático palestino, que leva à aceitação da
participação de grupos como o Hamas em eleições,
apesar de a democracia não poder, obviamente, ser construída por grupos que a
negam. A construção de uma verdadeira democracia palestina passa pela
destruição do Hamas. Assim como, não por acaso, a retomada
dos processos de paz. Até lá, como diria o grande analista político chamado
William Shakespeare, será muito barulho por nada. ■
Luis Dolhnikoff é escritor e ensaísta  © seier+seier+seier |