Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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OPINIÃO
Um futuro de instabilidades e incertezas
Para Samuel Feldberg, o novo governo israelense continuará e caminhar na corda bamba ante o acirramento do conflito com o crescente poder do fundamentalismo islâmico, dentro e fora das fronteiras do país, e a fragmentação cada vez maior da sociedade israelense em facções com poucas perspectivas de entendimento mútuo
Os últimos meses mantiveram Israel e os palestinos na mira da imprensa internacional. Primeiro, durante mais de três semanas as primeiras páginas dos jornais e as capas de revistas de todo o mundo, assim como os horários nobres do rádio e da televisão estamparam manchetes alardeando o "genocídio" praticado pelas forças armadas israelenses em Gaza, sem em nenhum momento se preocuparem com a abrangência do termo ou com os exemplos históricos de Ruanda, da Bósnia ou de Darfur. Nem vale a pena comentar, aqui, as mensagens que ousaram comparar as ações militares em Gaza com o Holocausto.

Expressões como "crimes de guerra" e "terrorismo de Estado" tornaram-se corriqueiras, e o foco centrou-se no número de civis mortos, sem qualquer preocupação com as razões apresentadas por Israel, ou mesmo a definição de quem eram os "civis" descritos como vítimas.

E, pouco depois da retirada das tropas israelenses do território palestino, iniciou-se a última fase da campanha eleitoral israelense, cujo resultado está sendo apresentado nos dias em que estas linhas são escritas, chamando novamente a atenção da opinião pública internacional.

O conflito em Gaza deixou marcas profundas. Prejudicou de forma importante a imagem de Israel, tanto junto ao mundo árabe e muçulmano quanto no Terceiro Mundo, na Europa e nas Américas. De nada adiantaram os comunicados das embaixadas israelenses, nem o tardio reconhecimento por parte das Nações Unidas de que sua escola não foi diretamente atingida, nem de que o Hamas se apropriou da ajuda remetida aos palestinos.

As eleições em Israel, sem dúvida nenhuma influenciadas pelo conflito em Gaza, ressaltaram as diferenças entre os polos da sociedade, e seu resultado, indefinido, aponta para a dificuldade que terá o novo governo em manter-se no poder.

A fragmentação política em Israel é notória; partidos nanicos surgem como cogumelos após a chuva, defendendo os interesses mais específicos, e dificultam a concentração de votos que permitiria a alguns poucos partidos representar parcela significativa da população. Assim, com o resultado destas eleições, podemos identificar um fortalecimento da direita, o que não significa que esta poderá criar um governo majoritário estável. Apesar de o partido Israel Beiteinu (15 cadeiras) se posicionar junto à direita, seu eleitorado dificilmente toleraria uma parceria com os religiosos do Shas (11 cadeiras), responsáveis por uma série de restrições à imigração de russos em anos passados.

O Kadima (28 cadeiras), que praticamente manteve sua representatividade, tem de sobrepujar o Likud (27 cadeiras) que, apesar de não ser o vencedor, praticamente dobrou o número de mandatos obtidos. Assim, se Likud e Israel Beiteinu se consideram vencedores, não há discussão a respeito da derrota sofrida pelos trabalhistas de Ehud Barak, ex-primeiro-ministro e atual ministro da Defesa, que pode ser entendida como crítica do eleitorado ao resultado da guerra em Gaza e à manutenção do poder pelo Hamas.

Quais são, então, as possibilidades de formação de uma coalizão?

Os enormes desafios que se apresentam poderiam estimular a formação de um governo de coalizão nacional em que o Likud e o Kadima juntos teriam 55 cadeiras necessitando, portanto, dos religiosos ou dos trabalhistas para obter uma confortável maioria. Mas o fato de Tzipi Livni ter abandonado o Likud para, junto a Ariel Sharon formar o Kadima, certamente complicaria a colaboração entre os dois. E Ehud Barak seria um complicado subordinado para qualquer um dos dois líderes, provavelmente colocando seus interesses e os de seu partido acima do interesse nacional.

O conflito em Gaza deixa feridas abertas que, assim como o Iraque e o Afeganistão no caso do presidente Barack Obama nos Estados Unidos, terão de ser curadas pelo novo governo, sob o risco de gangrenarem e exigirem uma amputação.

O Hamas continua no poder em Gaza, lançando (ou permitindo que sejam lançados) foguetes de alcance cada vez maior contra as cidades israelenses. O soldado Gilad Shalit continua em poder do Hamas, e as discussões em torno de sua libertação já envolvem milhares de prisioneiros palestinos, incluindo Marwan Barghouti, líder do Fatah e um dos instigadores das duas intifadas.

Os assentamentos na Cisjordânia continuam a ser ampliados - ainda que a alegação seja de acomodação do crescimento vegetativo. Grandes áreas continuam a ser reservadas para a consolidação da ocupação, como no espaço conhecido como A1, entre o leste de Jerusalém e Maale Adumim, e estradas que conectam os assentamentos do norte e do sul da Cisjordânia vêm sendo cortadas para uso exclusivo de cidadãos israelenses. A proposta de retirada unilateral, que deu vida ao Kadima, teve de ser abandonada, quase que esvaziando sua identidade. O que parecia ser uma quebra de paradigma em 2006, rompendo com a estagnação que separava a direita da esquerda até a criação do novo partido, deixou de ser viável após a tomada do poder pelo Hamas em 2007. E a guerra contra o Hezbolá, no Líbano, em 2006, com seu pobre resultado e enorme custo para a sociedade israelense, somente ajudou a esvaziar o potencial eleitoral do novo partido.

Por mais interessado que o novo líder israelense esteja em negociar (ou se for forçado pelos Estados Unidos a fazê-lo), Mahmoud Abbas não tem, hoje, legitimidade para representar os palestinos. Encurralado em Ramallah, dependente de Israel para manter-se no poder, enfrenta a permanente contestação de amplos setores da sociedade palestina e é incapaz de brindar-lhes um mínimo de orgulho e conforto. O Hamas provavelmente venceria novamente as eleições legislativas, o que manteria o impasse surgido em 2007.

No entorno do Oriente Médio, o Irã continua fortalecido e sem qualquer bloqueio de seu programa nuclear. São grandes as expectativas de engajamento do novo governo norte-americano e de uma resposta israelense à eventual permissividade de Barack Obama. Que tipo de governo será necessário em Israel para impedir que o Irã se torne uma potência nuclear, sem ao mesmo tempo alienar os Estados Unidos?

O difícil equilíbrio que vem se mantendo com a Síria, após a destruição da construção anunciada como parte do programa nuclear sírio, não impediu o Hezbolá de rearmar-se e manter refém o Líbano, sempre uma frente de confronto, ironicamente na única fronteira que Israel tem claramente definida.

As relações com o Egito, a chamada "paz fria", que chega agora aos trinta anos, vem se deteriorando graças à tensão gerada pela atuação do Hamas e à impotência de ambos, Israel e Egito, para lidar com o problema. As propostas que vêm circulando, de abandonar qualquer negociação que vislumbre a criação de um Estado palestino independente, entregando a Margem Ocidental de volta à Jordânia e a Faixa de Gaza ao Egito, somente complicam a questão e aumentam a suspeita do Egito de que não há espaço para maior cooperação com Israel.

Finalmente, a ascensão do partido Israel Beiteinu, de Avigdor Liberman, traz à tona a questão, sempre latente, da população muçulmana em Israel. Uma pequena minoria de pouco mais de cem mil habitantes em 1948, que por longos anos viveu sob lei marcial, tornou-se uma pujante minoria representada na suprema corte e na diplomacia israelense, mas extremamente hostil e sem pudor em demonstrá-lo. Os confrontos com os palestinos nas intifadas ou em Gaza e com o Hezbolá no Líbano intensificaram esta identidade dos cidadãos israelenses muçulmanos com o inimigo externo, e empurraram boa parte dos eleitores judeus para os braços do Israel Beiteinu.

As posições das diferentes ramificações políticas, que representam, cada uma, parcelas significativas da população, tornam quase impossível vislumbrar uma solução para o conflito com os palestinos. Liberman propõe entregar aos palestinos território israelense, desde que contenha também a população muçulmana de Israel. Os partidos religiosos opõem-se a uma devolução dos lugares considerados santos na Cisjordânia e também às propostas de Liberman de secularização da sociedade. E cada um dos partidos tem suas próprias propostas para o problema econômico que vem se aprofundando, sintoma da crise internacional que ainda não se fez sentir plenamente.

Os próximos tempos serão complicados para a sociedade israelense e para o futuro do ideal sionista. Segundo Daniel Pipes1, as propostas diametralmente opostas das lideranças árabes em Israel e do partido Israel Beiteinu são os lances iniciais de uma disputa que oferece apenas três brutais alternativas: ou os judeus abandonam a proposta sionista, ou os árabes israelenses aceitam o sionismo, ou os árabes israelenses terão de abrir mão de sua cidadania.

Talvez seja uma questão muito mais premente que os óbvios desafios externos que novos governos sempre têm de enfrentar.

Samuel Feldberg - doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais, é coordenador da área de Oriente Médio do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP, e do módulo Antissemitismo e Holocausto do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, da USP

1 - http://www.danielpipes.org/4220/israels-domestic-enemy- acessado em 15/2/2009

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