| Os últimos meses mantiveram Israel e os palestinos na mira
da imprensa internacional. Primeiro, durante mais de três semanas as primeiras
páginas dos jornais e as capas de revistas de todo o mundo, assim como os
horários nobres do rádio e da televisão estamparam manchetes alardeando o
"genocídio" praticado pelas forças armadas israelenses em Gaza, sem em nenhum
momento se preocuparem com a abrangência do termo ou com os exemplos históricos
de Ruanda, da Bósnia ou de Darfur. Nem vale a pena comentar, aqui, as mensagens que ousaram
comparar as ações militares em Gaza com o Holocausto.
Expressões como "crimes de guerra" e "terrorismo de Estado"
tornaram-se corriqueiras, e o foco centrou-se no
número de civis mortos, sem qualquer preocupação com as razões apresentadas por
Israel, ou mesmo a definição de quem eram os "civis" descritos como vítimas.
E, pouco depois da retirada das tropas israelenses do
território palestino, iniciou-se a última fase da campanha eleitoral
israelense, cujo resultado está sendo apresentado nos dias em que estas linhas
são escritas, chamando novamente a atenção da opinião pública internacional.
O conflito em Gaza deixou marcas profundas. Prejudicou de
forma importante a imagem de Israel, tanto junto ao mundo árabe e muçulmano
quanto no Terceiro Mundo, na Europa e nas Américas. De nada adiantaram os
comunicados das embaixadas israelenses, nem o tardio reconhecimento por parte
das Nações Unidas de que sua escola não foi diretamente atingida, nem de que o Hamas se apropriou da ajuda remetida aos palestinos.
As eleições em Israel, sem dúvida nenhuma influenciadas pelo
conflito em Gaza, ressaltaram as diferenças entre os polos
da sociedade, e seu resultado, indefinido, aponta para a dificuldade que terá o
novo governo em manter-se no poder.
A fragmentação política em Israel é notória; partidos
nanicos surgem como cogumelos após a chuva, defendendo os interesses mais
específicos, e dificultam a concentração de votos que permitiria
a alguns poucos partidos representar parcela significativa da população. Assim,
com o resultado destas eleições, podemos identificar um fortalecimento da
direita, o que não significa que esta poderá criar um governo majoritário
estável. Apesar de o partido Israel Beiteinu (15
cadeiras) se posicionar junto à direita, seu eleitorado dificilmente toleraria
uma parceria com os religiosos do Shas (11 cadeiras),
responsáveis por uma série de restrições à imigração de russos em anos
passados.
O Kadima (28 cadeiras), que
praticamente manteve sua representatividade, tem de sobrepujar o Likud (27 cadeiras) que, apesar de não ser o vencedor,
praticamente dobrou o número de mandatos obtidos. Assim, se Likud
e Israel Beiteinu se consideram vencedores, não há
discussão a respeito da derrota sofrida pelos trabalhistas de Ehud Barak, ex-primeiro-ministro
e atual ministro da Defesa, que pode ser entendida como crítica do eleitorado
ao resultado da guerra em Gaza e à manutenção do poder pelo Hamas.
Quais são, então, as possibilidades de formação de uma
coalizão?
Os enormes desafios que se apresentam poderiam estimular a
formação de um governo de coalizão nacional em que o Likud
e o Kadima juntos teriam 55 cadeiras necessitando,
portanto, dos religiosos ou dos trabalhistas para obter uma confortável
maioria. Mas o fato de Tzipi Livni
ter abandonado o Likud para, junto a Ariel Sharon
formar o Kadima, certamente complicaria a colaboração
entre os dois. E Ehud Barak
seria um complicado subordinado para qualquer um dos dois líderes,
provavelmente colocando seus interesses e os de seu partido acima do interesse
nacional.
O conflito em Gaza deixa feridas abertas que, assim como o
Iraque e o Afeganistão no caso do presidente Barack Obama nos Estados Unidos, terão de ser curadas pelo novo
governo, sob o risco de gangrenarem e exigirem uma amputação.
O Hamas continua no poder em Gaza,
lançando (ou permitindo que sejam lançados) foguetes de alcance cada vez maior
contra as cidades israelenses. O soldado Gilad Shalit continua em poder do Hamas,
e as discussões em torno de sua libertação já envolvem milhares de prisioneiros
palestinos, incluindo Marwan Barghouti,
líder do Fatah e um dos instigadores das duas intifadas.
Os assentamentos na Cisjordânia continuam a ser ampliados -
ainda que a alegação seja de acomodação do crescimento vegetativo. Grandes
áreas continuam a ser reservadas para a consolidação da ocupação, como no
espaço conhecido como A1, entre o leste de Jerusalém e Maale
Adumim, e estradas que conectam os assentamentos do
norte e do sul da Cisjordânia vêm sendo cortadas para uso exclusivo de cidadãos
israelenses. A proposta de retirada unilateral, que deu vida ao Kadima, teve de ser abandonada, quase que esvaziando sua
identidade. O que parecia ser uma quebra de paradigma em 2006, rompendo com a
estagnação que separava a direita da esquerda até a criação do novo partido,
deixou de ser viável após a tomada do poder pelo Hamas
em 2007. E a guerra contra o Hezbolá, no Líbano, em
2006, com seu pobre resultado e enorme custo para a sociedade israelense,
somente ajudou a esvaziar o potencial eleitoral do novo partido.
Por mais interessado que o novo líder israelense esteja em
negociar (ou se for forçado pelos Estados Unidos a fazê-lo), Mahmoud Abbas não tem, hoje,
legitimidade para representar os palestinos. Encurralado em Ramallah,
dependente de Israel para manter-se no poder, enfrenta a permanente contestação
de amplos setores da sociedade palestina e é incapaz de brindar-lhes um mínimo
de orgulho e conforto. O Hamas provavelmente venceria
novamente as eleições legislativas, o que manteria o impasse surgido em 2007.
No entorno do Oriente Médio, o Irã continua fortalecido e
sem qualquer bloqueio de seu programa nuclear. São grandes as expectativas de
engajamento do novo governo norte-americano e de uma resposta israelense à
eventual permissividade de Barack Obama.
Que tipo de governo será necessário em Israel para impedir que o Irã se torne
uma potência nuclear, sem ao mesmo tempo alienar os Estados Unidos?
O difícil equilíbrio que vem se mantendo com a Síria, após a
destruição da construção anunciada como parte do programa nuclear sírio, não
impediu o Hezbolá de rearmar-se e manter refém o Líbano,
sempre uma frente de confronto, ironicamente na única fronteira que Israel tem
claramente definida.
As relações com o Egito, a chamada
"paz fria", que chega agora aos trinta anos, vem se deteriorando graças à
tensão gerada pela atuação do Hamas e à impotência de
ambos, Israel e Egito, para lidar com o problema. As propostas que vêm
circulando, de abandonar qualquer negociação que vislumbre a criação de um
Estado palestino independente, entregando a Margem Ocidental de volta à
Jordânia e a Faixa de Gaza ao Egito, somente complicam a questão e aumentam a
suspeita do Egito de que não há espaço para maior cooperação com Israel.
Finalmente, a ascensão do partido Israel Beiteinu,
de Avigdor Liberman, traz à
tona a questão, sempre latente, da população muçulmana em Israel. Uma pequena
minoria de pouco mais de cem mil habitantes em 1948, que por longos anos viveu
sob lei marcial, tornou-se uma pujante minoria representada na suprema corte e
na diplomacia israelense, mas extremamente hostil e sem pudor em demonstrá-lo. Os
confrontos com os palestinos nas intifadas ou em Gaza
e com o Hezbolá no Líbano intensificaram esta
identidade dos cidadãos israelenses muçulmanos com o inimigo externo, e
empurraram boa parte dos eleitores judeus para os braços do Israel Beiteinu.
As posições das diferentes ramificações políticas, que
representam, cada uma, parcelas significativas da população, tornam quase impossível vislumbrar uma solução para o conflito com os
palestinos. Liberman propõe entregar aos palestinos território israelense, desde que contenha também
a população muçulmana de Israel. Os partidos religiosos opõem-se a uma
devolução dos lugares considerados santos na Cisjordânia e também às propostas
de Liberman de secularização da sociedade. E cada um
dos partidos tem suas próprias propostas para o problema econômico que vem se
aprofundando, sintoma da crise internacional que ainda não se fez sentir
plenamente.
Os próximos tempos serão complicados para a sociedade
israelense e para o futuro do ideal sionista. Segundo Daniel Pipes1,
as propostas diametralmente opostas das lideranças árabes em Israel e do partido Israel Beiteinu são os lances iniciais de uma disputa que oferece
apenas três brutais alternativas: ou os judeus abandonam a proposta sionista,
ou os árabes israelenses aceitam o sionismo, ou os árabes israelenses terão de
abrir mão de sua cidadania.
Talvez seja uma questão muito mais premente que os óbvios
desafios externos que novos governos sempre têm de enfrentar. ■
Samuel Feldberg - doutor em Ciência Política
e professor de Relações Internacionais, é coordenador da área de Oriente Médio
do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP, e do módulo Antissemitismo e Holocausto do Laboratório de Estudos sobre
a Intolerância, da USP
1 - http://www.danielpipes.org/4220/israels-domestic-enemy-
acessado em 15/2/2009 |