É sexta-feira de manhã e toda B'nei
Brak, cidade de população predominantemente ultraortodoxa, que fica bem ao lado da cosmopolita Tel Aviv, está agitada, correndo
com os preparativos para o shabat, o dia
semanal de descanso, rigorosamente respeitado em toda B'nei
Brak. Logo no começo da Rua Rabi Akiva, a principal artéria da cidade, o chamado Restaurante
Judaico está cheio. Durante a semana, os pratos são servidos num amplo salão,
ponto de encontro de profissionais do mundo ortodoxo, desde jornalistas e
empresários vestidos de terno e kipá pretos
até deputados do Knesset, o parlamento
israelense.
Mas na sexta-feira de manhã a rotina é diferente. O
restaurante é transformado num grande mercado de pratos feitos, vendidos a quilo. O celebrado tcholent
(à base de feijão branco, cevada, batata, carne e frango, um clássico das
refeições sabáticas) da casa é oferecido numa enorme
panela de ferro, ao lado de frangos preparados das mais diferentes maneiras,
além de itens obrigatórios da culinária judaica ashkenazi
como gefilte-fish, kiguel
e varenikes. "Na véspera do shabat, ninguém quer sentar em restaurante para
comer, assim é a tradição. Todos têm em mente que a refeição será em casa, à
noite", diz Elad Cohen, gerente da casa.
O restaurante, estrategicamente localizado na entrada da
cidade, recebe também israelenses seculares, atraídos pela publicidade da casa
que promete "comida judaica autêntica". Os visitantes, trajando roupas modernas
que poderiam ser consideradas imodestas nas ruas mais recônditas de B'nei Brak - onde os homens trajam,
invariavelmente, calças pretas, camisas brancas de mangas compridas e paletós
ou casacas pretas, e onde as mulheres escondem tudo o que esteja acima das
canelas ou dos cotovelos - fazem quentinhas, pesam, pagam e deixam a cidade. Cohen diz que recebe gente até de Haifa, distante pelo menos duas horas de viagem de automóvel
dali.
Quem está com fome, é melhor se garantir aqui, pois a Rua
Rabi Akiva praticamente não oferece outros
restaurantes. Em B'nei Brak, os
habitantes seguem o costume judaico herdado de tempos imemoriais de comer
sempre em casa. São
alheios aos apelos da cultura moderna de culinária requintada. Restaurantes
sofisticados, uma tendência representada principalmente em Tel Aviv, estão totalmente ausentes de sua
perspectiva existencial.
Deixando o Restaurante Judaico, a rua
Rabi Akiva aos poucos penetra nos recantos interiores
de B'nei Brak, esse
estranho mundo que parece uma continuação dos guetos e aldeias judaicas da
Europa Oriental de séculos passados. Em Israel, vale o dito "dize-me que kipá tu usas e eu te direi quem és".
A esmagadora maioria dos moradores de B'nei Brak porta kipás pretas,
de tecido reluzente, o que significa que são tradicionalistas, religiosos,
contrários ao secularismo judaico e também à ideologia sionista, que para eles
representa uma ruptura com conceitos centrais da tradição espiritual de Israel
- notadamente, com a ideia de que o retorno dos
judeus à terra de Israel está associado ao advento da Era Messiânica.
Religiosos de kipá tricotada, usada por um
público mais aberto à modernidade e pró-sionista, são raridades na cidade. Mas
na Rua Rabi Akiva ninguém discrimina ninguém, numa
multidão que inclui sefarditas e askenazitas,
isto é, judeus de origem leste-europeia ou espanhola,
hassidim ou pietistas, e litaim, os "lituanos", que no passado eram chamados de mitnagdim, ou ortodoxos estritos.
B'nei Brak
não chega a ser raivosamente antissionista como o
pequeno bairro de Mea Shearim,
em Jerusalém. Os
rabinos daqui não simpatizam com a ideologia secular que fundou o Estado de
Israel, mas fizeram as pazes com a realidade de viverem no país e participam
alegremente das eleições, apoiando partidos ortodoxos como Shas,
Agudat Israel e Degel Hatorah, que por sua vez lutam por verbas estatais para as yeshivot ou academias talmúdicas, onde a maior parte dos homens adultos passam seus dias
mergulhados nos volumosos tratados talmúdicos.
O fato de quase todos os habitantes de B'nei
Brak usarem quase um uniforme, composto de terno
escuro e camisa branca
para os homens e saia longa e peruca para as mulheres não significa
que não há nenhum tipo de preocupação com a moda. No número 44 da Rua Rabi Akiva está localizado um dos mais tradicionais pontos de
moda masculina da cidade, a loja Weizman. Tocada há
40 anos pela família de mesmo nome, chama a atenção pela monotonia dos trajes
exibidos na vitrine. "Realmente, não oferecemos muita variedade de cores; os
ternos vão do preto ao cinza claro", diz a dona do negócio, Mazal
Weizman.
Ela é a única mulher na loja, atendendo uma dezena de clientes. Nenhuma outra
mulher colocará os pés aqui, por questões de modéstia. Mesmo Mazal não trabalha na loja sem a presença do marido ou do
filho. Então, por que ela não fica em casa de uma vez por todas? "Ah não, os
clientes querem que eu esteja aqui, gostam de ouvir uma opinião feminina".
Nomes de rua em Israel têm
significado especial. As principais vias do país homenageiam quase
exclusivamente personalidades ligadas ao movimento sionista, como Allenby, Arlozorov ou Ben-Yehuda. O escritor Isaac Bashevis
Singer, por exemplo, apesar de ter recebido o Prêmio Nobel, nunca ganhou nome
de rua ou praça no país, pelo fato de ter criticado a discriminação contra o ídiche nos primeiros anos do Estado de Israel quando,
empenhados pelo estabelecimento do hebraico moderno como língua nacional, os
israelenses desprezavam os falantes do ídiche, visto
como uma "língua do exílio".
Não existe, em Israel, uma grande avenida
Maimônides ou um viaduto Rashi.
Apenas os religiosos que simpatizaram de alguma forma com o ideal sionista,
como o rabino Avraham Kook,
ganharam esta honraria. Mas em
B'nei Brak
isto é diferente. Aqui as ruas que cruzam a Rabi Akiva
levam nomes de rabinos e profetas, como Eliahu Hanavi, Chazon Ish e Sofonias. Até mesmo Theodor
Herzl perdeu seu lugar numa das principais ruas
adjacentes, para dar lugar ao rabino Eleazar Shach.
O conjunto de lojas no número 49 não chamaria a atenção de
ninguém em São Paulo.
Mas este edifício fez história ao ser inaugurado dois anos
atrás como o "primeiro shopping center ortodoxo de
Israel". As atrações são parcas: uma filial da Mashbir
Lazarkan, versão israelense da c&a, e uma loja Fox, uma espécie de Hering local.
A escada rolante não funciona, mas a este público totalmente alienado dos
grandes centros comerciais de Israel e do mundo isto não chama a atenção e ninguém
reclama de ter que subir a pé.
No início, os grandes rabinos proibiram a entrada de homens
neste shopping center, para evitar possíveis
imodéstias com o público feminino majoritário. Todos obedeceram, o que quase
levou à falência do empreendimento. Os comerciantes acabaram convencendo os
rabinos da ameaça, e as autoridades religiosas amenizaram a proibição. Até
hoje, o público masculino mais estritamente religioso evita o local, mas os
comerciantes tentam atrair o público mais tolerante. "Até abrimos uma seção de
sapatos para homens", diz a vendedora Moran, da Mashbir Lazarkan.
B'nei Brak
pode parecer retrógrada, mas pelo menos uma característica da Rua Rabi Akiva coloca a cidade na frente de muitas outras ao redor
do mundo. Em toda esquina, abundam caixas de ferro para recolhimento de tzedaká (doações para caridade). Instaladas
estrategicamente, perto de faróis, tentam aproveitar a pausa dos pedestres
aguardando o sinal verde para tocar-lhes a consciência. Uma destas caixas traz
uma peculiar mensagem: "Mamãe, você prometeu frango no shabat".
Os donativos desta caixa vão para uma associação de órfãos
que tenta cumprir a mitzvá (mandamento)
de garantir uma atmosfera "festiva" a todas as famílias no jantar de
sexta-feira, ou seja, com carne à mesa.
A economia de B'nei Brak sofre com o desprezo que a maioria de seus 150 mil
habitantes têm pela cultura moderna. O desdém por
educação científica por parte da elite rabínica não melhora as coisas num país
onde o setor high-tech paga os melhores
salários. Para combater a pobreza, há sempre gente procurando a solução mais
rápida. Daí as enormes filas que se formam diante das casas lotéricas da rua Rabi Akiva, com gente de kipá de todas as idades. Os grandes rabinos
desprezam a prática. Mas não chegam a proibi-la.
A precariedade econômica em que vive a maior parte dos
habitantes de B'nei Brak -
para os quais, afinal, a vida sobre a terra nada mais é do que o prelúdio de
acontecimentos muito mais importantes - reflete-se, também, no grande número de
ônibus que circulam pela rua Rabi Akiva.
Automóveis particulares são raridades e os moradores, que poucas vezes cruzam
os limites da cidade, locomovem-se a pé, apinhando-se nas calçadas. O barulho
faz parte da paisagem. Para escapar desta bagunça, alguns pedestres buscam refúgio
no número 66, onde fica a loja de música Grintek, a "fnac" da rua Rabi Akiva.
A primeira coisa que salta aos olhos nesta loja é a presença
maciça de fitas k-7, desaparecidas há muitos anos das
lojas no restante do país. "As pessoas ainda pedem neste formato por causa do
preço. O pessoal aqui não tem muito dinheiro, tenta economizar no que pode",
explica o vendedor, que se identifica apenas como Yom-Tov.
Outra curiosidade nesta loja são os filmes em dvd, aprovados após restrita censura dos rabinos. São de
todos os tipos - comédias, thrillers e até
mesmo policiais. Em alguns filmes há tiros, mas nunca um assassinato. Também só
há atores homens, nunca atrizes. Há também nas prateleiras uma grande oferta de
filmes retratando o mundo animal, produzidos pela National
Geographic. Todos trazem o selo "apropriado para o
público observante da Torá e das mitzvot",
isto é, a aprovação das autoridades religiosas. Mas mesmo aqui não há
unanimidade, pois no limite cada qual é livre para escolher o rabino ou o
movimento religioso que deseja seguir. Os rabinos do Chabad,
por exemplo, movimento que tem sua origem no pietismo
hassídico da Polônia, proibiram seus seguidores de
assistirem a filmes que mostram animais não-kasher,
isto é, não adequados ao consumo humano segundo as leis religiosas. Dentre
estes estão as zebras, os camelos e os elefantes - o que inviabiliza boa parte
das produções da National Geographic.
Mesmo com todas as atrações desta rua, nenhuma loja é mais
disputada na sexta-feira de manhã que as padarias. O cheiro de chalot, pães trançados, saídas do forno, dá o toque
por todo o passeio, e estes pães são comprados às centenas. Até mesmo a onda
naturalista chegou por aqui e chalot de pão
integral fazem parte da oferta. Uma das padarias mais charmosas está no número 131, a Shuva
Simchot, com boa variedade de produtos.
No número 126 da rua Rabi Akiva está a sinagoga Itzkowitz,
que chama a atenção por fornecer um serviço de rezas 24 horas non-stop. Neste edifício, cuja construção ainda está
em curso, e sem nenhum requinte, centenas de judeus ortodoxos interrompem suas
compras, espremendo-se para participar de um dos cinco serviços religiosos que
acontecem simultaneamente. Calcula-se que 15 mil pessoas passem por aqui
diariamente, seguidoras das mais diversas tendências da ortodoxia judaica
contemporânea. ■ Ariel Fingerman é jornalista
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