Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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O REPÓRTER
Em busca do tempo perdido
Ariel Fingerman visita a cidade ultraortodoxa de B'nei Brak, situada bem ao lado da moderna e cosmopolita Tel Aviv, e encontra uma população que dá continuidade, em Israel, a um estilo de vida proveniente das antigas aldeias e guetos do Leste Europeu de séculos passados

É sexta-feira de manhã e toda B'nei Brak, cidade de população predominantemente ultraortodoxa, que fica bem ao lado da cosmopolita Tel Aviv, está agitada, correndo com os preparativos para o shabat, o dia semanal de descanso, rigorosamente respeitado em toda B'nei Brak. Logo no começo da Rua Rabi Akiva, a principal artéria da cidade, o chamado Restaurante Judaico está cheio. Durante a semana, os pratos são servidos num amplo salão, ponto de encontro de profissionais do mundo ortodoxo, desde jornalistas e empresários vestidos de terno e kipá pretos até deputados do Knesset, o parlamento israelense.

Mas na sexta-feira de manhã a rotina é diferente. O restaurante é transformado num grande mercado de pratos feitos, vendidos a quilo. O celebrado tcholent (à base de feijão branco, cevada, batata, carne e frango, um clássico das refeições sabáticas) da casa é oferecido numa enorme panela de ferro, ao lado de frangos preparados das mais diferentes maneiras, além de itens obrigatórios da culinária judaica ashkenazi como gefilte-fish, kiguel e varenikes. "Na véspera do shabat, ninguém quer sentar em restaurante para comer, assim é a tradição. Todos têm em mente que a refeição será em casa, à noite", diz Elad Cohen, gerente da casa.

O restaurante, estrategicamente localizado na entrada da cidade, recebe também israelenses seculares, atraídos pela publicidade da casa que promete "comida judaica autêntica". Os visitantes, trajando roupas modernas que poderiam ser consideradas imodestas nas ruas mais recônditas de B'nei Brak - onde os homens trajam, invariavelmente, calças pretas, camisas brancas de mangas compridas e paletós ou casacas pretas, e onde as mulheres escondem tudo o que esteja acima das canelas ou dos cotovelos - fazem quentinhas, pesam, pagam e deixam a cidade. Cohen diz que recebe gente até de Haifa, distante pelo menos duas horas de viagem de automóvel dali.

Quem está com fome, é melhor se garantir aqui, pois a Rua Rabi Akiva praticamente não oferece outros restaurantes. Em B'nei Brak, os habitantes seguem o costume judaico herdado de tempos imemoriais de comer sempre em casa. São alheios aos apelos da cultura moderna de culinária requintada. Restaurantes sofisticados, uma tendência representada principalmente em Tel Aviv, estão totalmente ausentes de sua perspectiva existencial.

Deixando o Restaurante Judaico, a rua Rabi Akiva aos poucos penetra nos recantos interiores de B'nei Brak, esse estranho mundo que parece uma continuação dos guetos e aldeias judaicas da Europa Oriental de séculos passados. Em Israel, vale o dito "dize-me que kipá tu usas e eu te direi quem és". A esmagadora maioria dos moradores de B'nei Brak porta kipás pretas, de tecido reluzente, o que significa que são tradicionalistas, religiosos, contrários ao secularismo judaico e também à ideologia sionista, que para eles representa uma ruptura com conceitos centrais da tradição espiritual de Israel - notadamente, com a ideia de que o retorno dos judeus à terra de Israel está associado ao advento da Era Messiânica. Religiosos de kipá tricotada, usada por um público mais aberto à modernidade e pró-sionista, são raridades na cidade. Mas na Rua Rabi Akiva ninguém discrimina ninguém, numa multidão que inclui sefarditas e askenazitas, isto é, judeus de origem leste-europeia ou espanhola, hassidim ou pietistas, e litaim, os "lituanos", que no passado eram chamados de mitnagdim, ou ortodoxos estritos.

B'nei Brak não chega a ser raivosamente antissionista como o pequeno bairro de Mea Shearim, em Jerusalém. Os rabinos daqui não simpatizam com a ideologia secular que fundou o Estado de Israel, mas fizeram as pazes com a realidade de viverem no país e participam alegremente das eleições, apoiando partidos ortodoxos como Shas, Agudat Israel e Degel Hatorah, que por sua vez lutam por verbas estatais para as yeshivot ou academias talmúdicas, onde a maior parte dos homens adultos passam seus dias mergulhados nos volumosos tratados talmúdicos.

O fato de quase todos os habitantes de B'nei Brak usarem quase um uniforme, composto de terno escuro e camisa branca para os homens e saia longa e peruca para as mulheres não significa que não há nenhum tipo de preocupação com a moda. No número 44 da Rua Rabi Akiva está localizado um dos mais tradicionais pontos de moda masculina da cidade, a loja Weizman. Tocada há 40 anos pela família de mesmo nome, chama a atenção pela monotonia dos trajes exibidos na vitrine. "Realmente, não oferecemos muita variedade de cores; os ternos vão do preto ao cinza claro", diz a dona do negócio, Mazal Weizman.

Ela é a única mulher na loja, atendendo uma dezena de clientes. Nenhuma outra mulher colocará os pés aqui, por questões de modéstia. Mesmo Mazal não trabalha na loja sem a presença do marido ou do filho. Então, por que ela não fica em casa de uma vez por todas? "Ah não, os clientes querem que eu esteja aqui, gostam de ouvir uma opinião feminina".

Nomes de rua em Israel têm significado especial. As principais vias do país homenageiam quase exclusivamente personalidades ligadas ao movimento sionista, como Allenby, Arlozorov ou Ben-Yehuda. O escritor Isaac Bashevis Singer, por exemplo, apesar de ter recebido o Prêmio Nobel, nunca ganhou nome de rua ou praça no país, pelo fato de ter criticado a discriminação contra o ídiche nos primeiros anos do Estado de Israel quando, empenhados pelo estabelecimento do hebraico moderno como língua nacional, os israelenses desprezavam os falantes do ídiche, visto como uma "língua do exílio".

Não existe, em Israel, uma grande avenida Maimônides ou um viaduto Rashi. Apenas os religiosos que simpatizaram de alguma forma com o ideal sionista, como o rabino Avraham Kook, ganharam esta honraria. Mas em B'nei Brak isto é diferente. Aqui as ruas que cruzam a Rabi Akiva levam nomes de rabinos e profetas, como Eliahu Hanavi, Chazon Ish e Sofonias. Até mesmo Theodor Herzl perdeu seu lugar numa das principais ruas adjacentes, para dar lugar ao rabino Eleazar Shach.

O conjunto de lojas no número 49 não chamaria a atenção de ninguém em São Paulo. Mas este edifício fez história ao ser inaugurado dois anos atrás como o "primeiro shopping center ortodoxo de Israel". As atrações são parcas: uma filial da Mashbir Lazarkan, versão israelense da c&a, e uma loja Fox, uma espécie de Hering local. A escada rolante não funciona, mas a este público totalmente alienado dos grandes centros comerciais de Israel e do mundo isto não chama a atenção e ninguém reclama de ter que subir a pé.

No início, os grandes rabinos proibiram a entrada de homens neste shopping center, para evitar possíveis imodéstias com o público feminino majoritário. Todos obedeceram, o que quase levou à falência do empreendimento. Os comerciantes acabaram convencendo os rabinos da ameaça, e as autoridades religiosas amenizaram a proibição. Até hoje, o público masculino mais estritamente religioso evita o local, mas os comerciantes tentam atrair o público mais tolerante. "Até abrimos uma seção de sapatos para homens", diz a vendedora Moran, da Mashbir Lazarkan.

B'nei Brak pode parecer retrógrada, mas pelo menos uma característica da Rua Rabi Akiva coloca a cidade na frente de muitas outras ao redor do mundo. Em toda esquina, abundam caixas de ferro para recolhimento de tzedaká (doações para caridade). Instaladas estrategicamente, perto de faróis, tentam aproveitar a pausa dos pedestres aguardando o sinal verde para tocar-lhes a consciência. Uma destas caixas traz uma peculiar mensagem: "Mamãe, você prometeu frango no shabat". Os donativos desta caixa vão para uma associação de órfãos que tenta cumprir a mitzvá (mandamento) de garantir uma atmosfera "festiva" a todas as famílias no jantar de sexta-feira, ou seja, com carne à mesa.

A economia de B'nei Brak sofre com o desprezo que a maioria de seus 150 mil habitantes têm pela cultura moderna. O desdém por educação científica por parte da elite rabínica não melhora as coisas num país onde o setor high-tech paga os melhores salários. Para combater a pobreza, há sempre gente procurando a solução mais rápida. Daí as enormes filas que se formam diante das casas lotéricas da rua Rabi Akiva, com gente de kipá de todas as idades. Os grandes rabinos desprezam a prática. Mas não chegam a proibi-la.

A precariedade econômica em que vive a maior parte dos habitantes de B'nei Brak - para os quais, afinal, a vida sobre a terra nada mais é do que o prelúdio de acontecimentos muito mais importantes - reflete-se, também, no grande número de ônibus que circulam pela rua Rabi Akiva. Automóveis particulares são raridades e os moradores, que poucas vezes cruzam os limites da cidade, locomovem-se a pé, apinhando-se nas calçadas. O barulho faz parte da paisagem. Para escapar desta bagunça, alguns pedestres buscam refúgio no número 66, onde fica a loja de música Grintek, a "fnac" da rua Rabi Akiva.

A primeira coisa que salta aos olhos nesta loja é a presença maciça de fitas k-7, desaparecidas muitos anos das lojas no restante do país. "As pessoas ainda pedem neste formato por causa do preço. O pessoal aqui não tem muito dinheiro, tenta economizar no que pode", explica o vendedor, que se identifica apenas como Yom-Tov.

Outra curiosidade nesta loja são os filmes em dvd, aprovados após restrita censura dos rabinos. São de todos os tipos - comédias, thrillers e até mesmo policiais. Em alguns filmes há tiros, mas nunca um assassinato. Também só há atores homens, nunca atrizes. Há também nas prateleiras uma grande oferta de filmes retratando o mundo animal, produzidos pela National Geographic. Todos trazem o selo "apropriado para o público observante da Torá e das mitzvot", isto é, a aprovação das autoridades religiosas. Mas mesmo aqui não há unanimidade, pois no limite cada qual é livre para escolher o rabino ou o movimento religioso que deseja seguir. Os rabinos do Chabad, por exemplo, movimento que tem sua origem no pietismo hassídico da Polônia, proibiram seus seguidores de assistirem a filmes que mostram animais não-kasher, isto é, não adequados ao consumo humano segundo as leis religiosas. Dentre estes estão as zebras, os camelos e os elefantes - o que inviabiliza boa parte das produções da National Geographic.

Mesmo com todas as atrações desta rua, nenhuma loja é mais disputada na sexta-feira de manhã que as padarias. O cheiro de chalot, pães trançados, saídas do forno, dá o toque por todo o passeio, e estes pães são comprados às centenas. Até mesmo a onda naturalista chegou por aqui e chalot de pão integral fazem parte da oferta. Uma das padarias mais charmosas está no número 131, a Shuva Simchot, com boa variedade de produtos.

No número 126 da rua Rabi Akiva está a sinagoga Itzkowitz, que chama a atenção por fornecer um serviço de rezas 24 horas non-stop. Neste edifício, cuja construção ainda está em curso, e sem nenhum requinte, centenas de judeus ortodoxos interrompem suas compras, espremendo-se para participar de um dos cinco serviços religiosos que acontecem simultaneamente. Calcula-se que 15 mil pessoas passem por aqui diariamente, seguidoras das mais diversas tendências da ortodoxia judaica contemporânea.

Ariel Fingerman é jornalista

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Uma das caixas de Tzedaká, termo hebraico que designa a justiça e a caridade para com os menos favorecidos, ubíquas em B'nei Brak.
Ariel Fingerman
Acima, a Rua Theodor Herzl de B'nei Brak, cujo nome recentemente foi alterado para Rav Schach.
Ariel Fingerman
 
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