Entre os milhares de pequenos e pacatos conglomerados
urbanos que há por todos os lados, na Alemanha, e dos quais raramente se tem
notícia, está Höxter, na província da Westfalia, cerca de 150 quilômetros ao
sul de Hannover. Höxter tem
cerca de 150 mil habitantes. E como tantas outras dessas pequenas cidades,
tinha, até a década de 1930, uma pequena e inexpressiva comunidade judaica,
constituída por 62 famílias (cerca de 240 adultos e crianças), com sua própria
sinagoga, mikvá (casa de banho ritual) e
cemitério. Assim como em toda a Alemanha, a comunidade estava integrada à vida
e cultura alemãs e seus
membros orgulhosamente se consideravam cidadãos alemães de fé israelita - e
patriotas: dezenas de milhares deles haviam lutado na 1ª Guerra Mundial, como
os demais alemães, e alguns haviam até sido laureados com a Cruz de Ferro por
atos de bravura em combate.
Cinquenta anos após a "Noite dos
Cristais", ocorrida em novembro de 1938, um pequeno grupo de cidadãos de Höxter reuniu-se para homenagear seus antigos cidadãos de
fé judaica, arrancados de suas moradias, deportados e quase todos assassinados
em Riga, na Letônia. Os arquivos municipais foram
vasculhados por esse grupo, jornais da época foram dissecados, testemunhas ainda vivas foram entrevistadas. E assim vieram
à tona nomes de família obliterados: Uhlmann, Löwenstein, Lipper, Netheim, Rosenberg, Sinson, Blankenberg, Dillenberg, Frankenberg, Pins, entre os quais
estão membros de minha própria família. Dessas pesquisas surgiram dois livros,
de dois autores de Höxter. São eles Höxter: Verdrängte Geschichte (Höxter, uma
história reprimida), de Ernst Würzburger,
e Dr.Richard Frankenberg, Ein
Jüdischer Bürger Höxter (Dr. Richard Frankenberg,
um cidadão judeu de Höxter), de Fritz
Ostkämper. Além desses livros, a memória dos judeus
de Höxter é hoje lembrada por placas de bronze
incrustadas nas calçadas em frente às casas onde viviam. O nome destas pequenas
homenagens é Stolpersteine,
ou pedras de tropeço.
Jacob Pins, um dos filhos do
veterinário Leo e de sua mulher Ida Pins, nasceu em Höxter em 1917.
Deixou a Alemanha ainda em 1938, refugiando-se na antiga Palestina britânica.
Seus pais permaneceram na cidade e, em 1942, foram deportados para Riga, Letônia, sendo assassinados em 1944, depois de dois
anos de trabalhos forçados, junto com os demais judeus que haviam permanecido
na comunidade.
Na Palestina, Jacob Pins trabalhou
num kibutz até 1941, ano em que conseguiu uma bolsa de estudos para se
tornar aprendiz do conhecido artista expressionista Jakob Steinhardt,
como ele, um refugiado alemão. Sua primeira exposição individual foi em 1945, em Tel Aviv. Em 1949 foi um dos fundadores da
Associação dos Artistas Plásticos de Jerusalém. No pós-guerra, tornou-se um dos
maiores colecionadores de pinturas japonesas de Israel - e esta coleção exerce
também alguma influência sobre suas próprias pinturas e esculturas. Ainda em
1956, Pins tornou-se professor da Academia Bezalel de Arte e Design em Jerusalém. Seus
quadros, esculturas e xilogravuras hoje estão nos principais museus de Israel e
em muitos museus da Europa, dos Estados Unidos e da Austrália - entre os quais
destacamos o Metropolitan Museum
of Art, o Jewish Museum e o Museum of Modern
Art, todos de Nova York.
Recebeu o prêmio Ohara na Bienal
de Tóquio e, em 1961, o Prêmio Jerusalém. Já em 1967 uma Galeria de arte de Höxter, que ele visitava então pela primeira vez depois de
sua emigração, organizou uma exposição de seus quadros. E a partir daí o
artista empenhou-se em construir pontes com seus antigos concidadãos: com o
passar dos anos, tomou forma a ideia de doar seu
acervo particular à sua cidade natal.
Uma comissão organizadora de cidadãos de Höxter
foi criada com a colaboração da Prefeitura da cidade. A Jacob
Pins Gesellschaft (www.jacob-pins.de) foi constituída e, com esforço,
determinação e persistência, arrecadou dinheiro suficiente para a recuperação
de um prédio de valor histórico da cidade. Surgiu, assim, o Forum
e Museu Jacob Pins, que homenageia o artista e as
demais famílias judaicas da região, e que hoje abriga a maior parte do acervo
particular de quadros e xilogravuras de Pins.
Inaugurado em 2008, o museu não ficou pronto a tempo de ser visto por Pins, que faleceu em 2005, aos 88 anos de idade. Mas o
público caloroso que acorreu à inauguração, juntamente com autoridades
estaduais, a atual liderança judaica da Alemanha, e o Presidente da República,
representado por uma mensagem, mostram que as pontes de entendimento lançadas por Pins alcançaram seu
objetivo: ao estender as mãos aos descendentes dos perpetradores do Genocídio,
seu gesto lembra que as rupturas causadas pela guerra podem - e devem - ser
reconstruídas por meio do perdão. ■
Louis Frankenberg é jornalista e consultor
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