Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
CENTRO DA CULTURA JUDAICA
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O REPÓRTER
Memórias de uma cidade absolutamente normal
Louis Frankenberg visita Höxter, a cidade de seus antepassados, na Alemanha, por ocasião da inauguração do Museu Jakob Pins, artista plástico que se refugiou do nazismo em 1938, mas que, apesar dos acontecimentos históricos, legou seu acervo à sua cidade natal

Entre os milhares de pequenos e pacatos conglomerados urbanos que há por todos os lados, na Alemanha, e dos quais raramente se tem notícia, está Höxter, na província da Westfalia, cerca de 150 quilômetros ao sul de Hannover. Höxter tem cerca de 150 mil habitantes. E como tantas outras dessas pequenas cidades, tinha, até a década de 1930, uma pequena e inexpressiva comunidade judaica, constituída por 62 famílias (cerca de 240 adultos e crianças), com sua própria sinagoga, mikvá (casa de banho ritual) e cemitério. Assim como em toda a Alemanha, a comunidade estava integrada à vida e cultura alemãs e seus membros orgulhosamente se consideravam cidadãos alemães de fé israelita - e patriotas: dezenas de milhares deles haviam lutado na 1ª Guerra Mundial, como os demais alemães, e alguns haviam até sido laureados com a Cruz de Ferro por atos de bravura em combate.

Cinquenta anos após a "Noite dos Cristais", ocorrida em novembro de 1938, um pequeno grupo de cidadãos de Höxter reuniu-se para homenagear seus antigos cidadãos de fé judaica, arrancados de suas moradias, deportados e quase todos assassinados em Riga, na Letônia. Os arquivos municipais foram vasculhados por esse grupo, jornais da época foram dissecados, testemunhas ainda vivas foram entrevistadas. E assim vieram à tona nomes de família obliterados: Uhlmann, Löwenstein, Lipper, Netheim, Rosenberg, Sinson, Blankenberg, Dillenberg, Frankenberg, Pins, entre os quais estão membros de minha própria família. Dessas pesquisas surgiram dois livros, de dois autores de Höxter. São eles Höxter: Verdrängte Geschichte (Höxter, uma história reprimida), de Ernst Würzburger, e Dr.Richard Frankenberg, Ein Jüdischer Bürger Höxter (Dr. Richard Frankenberg, um cidadão judeu de Höxter), de Fritz Ostkämper. Além desses livros, a memória dos judeus de Höxter é hoje lembrada por placas de bronze incrustadas nas calçadas em frente às casas onde viviam. O nome destas pequenas homenagens é Stolpersteine, ou pedras de tropeço.

Jacob Pins, um dos filhos do veterinário Leo e de sua mulher Ida Pins, nasceu em Höxter em 1917. Deixou a Alemanha ainda em 1938, refugiando-se na antiga Palestina britânica. Seus pais permaneceram na cidade e, em 1942, foram deportados para Riga, Letônia, sendo assassinados em 1944, depois de dois anos de trabalhos forçados, junto com os demais judeus que haviam permanecido na comunidade.

Na Palestina, Jacob Pins trabalhou num kibutz até 1941, ano em que conseguiu uma bolsa de estudos para se tornar aprendiz do conhecido artista expressionista Jakob Steinhardt, como ele, um refugiado alemão. Sua primeira exposição individual foi em 1945, em Tel Aviv. Em 1949 foi um dos fundadores da Associação dos Artistas Plásticos de Jerusalém. No pós-guerra, tornou-se um dos maiores colecionadores de pinturas japonesas de Israel - e esta coleção exerce também alguma influência sobre suas próprias pinturas e esculturas. Ainda em 1956, Pins tornou-se professor da Academia Bezalel de Arte e Design em Jerusalém. Seus quadros, esculturas e xilogravuras hoje estão nos principais museus de Israel e em muitos museus da Europa, dos Estados Unidos e da Austrália - entre os quais destacamos o Metropolitan Museum of Art, o Jewish Museum e o Museum of Modern Art, todos de Nova York.

Recebeu o prêmio Ohara na Bienal de Tóquio e, em 1961, o Prêmio Jerusalém. Já em 1967 uma Galeria de arte de Höxter, que ele visitava então pela primeira vez depois de sua emigração, organizou uma exposição de seus quadros. E a partir daí o artista empenhou-se em construir pontes com seus antigos concidadãos: com o passar dos anos, tomou forma a ideia de doar seu acervo particular à sua cidade natal.

Uma comissão organizadora de cidadãos de Höxter foi criada com a colaboração da Prefeitura da cidade. A Jacob Pins Gesellschaft (www.jacob-pins.de) foi constituída e, com esforço, determinação e persistência, arrecadou dinheiro suficiente para a recuperação de um prédio de valor histórico da cidade. Surgiu, assim, o Forum e Museu Jacob Pins, que homenageia o artista e as demais famílias judaicas da região, e que hoje abriga a maior parte do acervo particular de quadros e xilogravuras de Pins. Inaugurado em 2008, o museu não ficou pronto a tempo de ser visto por Pins, que faleceu em 2005, aos 88 anos de idade. Mas o público caloroso que acorreu à inauguração, juntamente com autoridades estaduais, a atual liderança judaica da Alemanha, e o Presidente da República, representado por uma mensagem, mostram que as pontes de entendimento lançadas por Pins alcançaram seu objetivo: ao estender as mãos aos descendentes dos perpetradores do Genocídio, seu gesto lembra que as rupturas causadas pela guerra podem - e devem - ser reconstruídas por meio do perdão.

Louis Frankenberg é jornalista e consultor


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O autorretrato do artista,quando jovem
Uma das fascinantes gravuras de Pins, que retrata sua cidade natal, Höxter
 
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