No número 59 da rua Alexandre
Herculano, bairro de São Mamede, está localizado o centro espiritual da
comunidade judaica lisboeta - a Sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança, em hebraico). Ao contrário de
outros templos em várias cidades do mundo, que possuem entradas monumentais, a Shaaré Tikvá é guardada por um
muro que a separa da rua. Motivo: quando os judeus resolveram erguer o
edifício, no início do século passado, uma lei impedia a construção de templos
que não fossem da religião oficial do Estado, a católica, com a fachada voltada
para a rua. Mas, nem por isso a sinagoga perde o significado, o brilho e a
importância - pelo contrário.
Além de centro espiritual da comunidade lisboeta, a Sinagoga
Shaaré Tikvá é um ícone do
judaísmo português, pois foi o primeiro templo judaico construído na cidade
desde a expulsão e as conversões forçadas de judeus, em 1497. A história da sinagoga
começa em 23 de agosto de 1901, data da escritura de compra do terreno na rua Alexandre Herculano. A pedra fundamental foi colocada em
25 de maio de 1902 por Abraham E. Levy. A inauguração
oficial ocorreu em 18 de maio de 1904. O projeto arquitetônico recebe a
assinatura de Miguel Ventura Terra, um dos mais conceituados arquitetos da
época.
Antes de entrar no templo, atravessa-se um pequeno pátio e,
no muro à direita da entrada, diversas placas lembram pessoas que tiveram
atuação destacada na comunidade. Pela leitura dos sobrenomes ali inscritos,
constata-se a composição mista da nova comunidade lisboeta: Baruel
e Sequerra (sefarditas) e Halpern e Diesendruck (askenazitas), por exemplo. Uma das placas homenageia o
diplomata português Aristides de
Sousa Mendes do Amaral e Abranches (1885-1954), que foi cônsul em Bordeaux, na
França, entre 1938 e 1940, período em que concedeu, à revelia das ordens de seu
governo, vistos de entrada a mais de 30 mil refugiados do nazifascismo.
O interior da sinagoga é tipicamente sefardita
e um de seus diferenciais é a presença de dois balcões elevados, nos lados
direito e esquerdo da Arca. A sinagoga vem sendo muito bem conservada, tendo
passado por obras de restauro em 1949 e também atualmente.
Na Sinagoga Shaaré Tikvá reúne-se, às sextas feiras à noite,
boa parte da comunidade judaica da cidade. E quando entrei lá pela
primeira vez, foi para participar de um Cabalat
Shabat, o serviço religioso que dá as boas-vindas
ao sábado, dia de recolhimento e oração para os judeus. O ritual foi conduzido
pelo jovem rabino da comunidade, o romano Eliezer Shai di Martino, de trinta anos.
Casado, pai de duas filhas, estudou em Jerusalém e,
antes de assumir este posto em Lisboa, trabalhou na sinagoga do Porto, no norte
de Portugal. É comovente ver em Lisboa, no coração de um país onde, séculos
atrás, os judeus foram perseguidos pela intolerância do Estado e da Igreja
Católica e praticamente extintos pela Inquisição, uma comunidade judaica
organizada. A presença de jovens no serviço religioso mostra que o judaísmo
lusitano sobreviveu, permanece vivo e tem uma série de desafios pela frente.
Viajei a Portugal no ano passado e, logo que cheguei,
telefonei para o diretor-executivo da Comunidade Israelita de Lisboa (cil), o paulistano Marcos Prist,
que conhecia há décadas. Prist, que já fala com
sotaque e usa expressões típicas do português lusitano, vive com a esposa e
dois filhos na capital portuguesa desde 2001 e trabalha como diretor-executivo
da cil. Combinei encontrar-me com ele na sede da
comunidade, que ocupa um andar de um pequeno prédio a poucas quadras da
sinagoga e da estação de metrô Rato. Embora a vida na cidade seja muito tranquila em relação à segurança, o edifício é
permanentemente vigiado por câmeras de vídeo.
"Aqui foi a sede do Joint (American Jewish Joint Distribution Committee), que ajudou muitos judeus refugiados durante a
2ª Guerra Mundial", diz Prist, diante da janela que
dá para a estreita rua do Monte Olivete.
A filósofa alemã Hannah Harendt
(1906-1975) foi uma das muitas pessoas que receberam ajuda em Lisboa antes de
conseguir emigrar para os Estados Unidos - o destino principal da maioria dos
refugiados. "Um de nossos projetos é a triagem e catalogação das fichas desses
refugiados para preservação e pesquisa", disse Prist.
Além da sinagoga, Lisboa guarda alguns lugares da memória
judaica, como a Alfama, o Rossio
e a Praça do Comércio. A Alfama é o mais antigo e um
dos mais tradicionais bairros da capital portuguesa. Seus becos e vielas estão
em torno do Castelo de São Jorge, erigido pelos árabes no século xi e conquistado pelos cristãos em 1147. Ali fica a Rua da
Judiaria, única referência remanescente do antigo bairro judaico.
A imensa Praça de Dom Pedro iv - o Dom Pedro i dos brasileiros - é mais conhecida pelo antigo
nome de Rossio. A sua volta estão cafés,
restaurantes, uma estação do metrô e várias lojas. Mas, séculos atrás, foi
palco de diversos autos-de-fé - os "espetáculos" promovidos pela Inquisição, de
1536 a
1821, em que eram queimados vivos, em grandes fogueiras, os hereges acusados de
judaísmo, sodomia, bruxaria e outros "crimes" contra a Igreja Católica. Outro
local de autos-de-fé é a Praça do Comércio, mais conhecida por Terreiro do Paço, em frente ao rio
Tejo.
Próximo do Rossio, no Largo de São
Domingos e pertinho da Igreja de São Domingos, um monumento de autoria de Graça
Bachmann relembra os milhares de judeus assassinados
no chamado Massacre de Lisboa, em 1506, quando uma multidão incitada pelos
frades dominicanos provocou o massacre durante três dias, de 19 a 21 de abril daquele ano.
A comunidade judaica da Grande Lisboa hoje soma entre
duzentas e 250 famílias, com aproximadamente mil pessoas, e muitas delas são
brasileiras, vindas sobretudo dos estados de São Paulo
e do Rio de Janeiro. E há muitos jovens e muitas crianças. "Desse total, 170
famílias, entre seiscentas e setecentas pessoas, participam da cil", diz Prist. "Entre 35 e
quarenta por cento têm origem askenazita", diz ele,
relatando que a comunidade oferece quase todos os serviços a seus membros. Há
cemitério, rabino, serviços religiosos, atividades para jovens e terceira
idade, prática esportiva e um dinâmico sistema de comunicação, com site,
boletins eletrônicos e a revista Tikvá. Só o
que não há é uma escola judaica. "No entanto, há dois anos criamos o
Departamento de Ensino Judaico, que tenta suprir as deficiências quanto a
hebraico e judaísmo." A coordenação deste departamento é de outro brasileiro,
Laércio Pintchoviski.
Em maio de 2004,
a comunidade inaugurou, em Rio de Mouro, nas
proximidades de Lisboa, o Maccabi Country Club. Fui visitar o local a convite de Prist
e de sua família, num belo domingo de sol. A área soma cinco mil metros
quadrados, é muito bonita e oferece facilidades como casa com cozinha, bar (o
"Bar Mitzvah") e diversas salas, piscina, campo de
futebol - sim, os portugueses também adoram o esporte! - e jardins exuberantes
e bem-cuidados. Os caseiros, um simpático casal, são
brasileiros de Minas Gerais. No dia da visita, diversas famílias estavam
presentes, com muitos jovens e crianças. Houve jogo de futebol, um delicioso
almoço comunitário - onde foi servido, entre outras delícias, um maravilhoso
bacalhau com nata (creme de leite) - e a exibição de um vídeo sobre a
participação do time de futebol no European Maccaby Football Trophy, realizado este ano em Madri (Espanha), onde a
representação conquistou o terceiro lugar. "Estamos incentivando o hábito de frequentar este espaço, pois aqui não há essa cultura", diz
Prist. "Para isso, passamos a desenvolver várias
atividades." A iniciativa tem dado certo. Basta ver as fotos dos eventos
culturais, religiosos e esportivos no site da cil.
Como em qualquer comunidade judaica do mundo, o maior
desafio enfrentado pela cil é a continuidade. "Queremos
as pessoas mais próximas da sinagoga", diz Prist.
"Não queremos que o templo se torne um museu." Outra dificuldade enfrentada
pela cil é atrair jovens entre 25 anos e 35 anos.
"Precisamos fortalecer esse segmento formado por solteiros, universitários e
pós-universitários. Precisamos motivá-los a participar de nossas atividades."
Os desafios, como se percebe, são grandes. Assim como é a vontade de vencê-los
e superá-los por parte dos integrantes da cil. ■
www.cilisboa.org
www.mvasm.sapo.pt
O jornalista Cláudio Schapochnik
viajou com o apoio do Turismo de Portugal e dos hotéis Dom Pedro Palace, em Lisboa
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