A história dos judeus, nos últimos dois mil anos, constrói-se
por meio de duas dinâmicas opostas: de um lado, a do povo judeu como um todo, ancorado
em suas tradições; de outro, a das múltiplas diásporas. Dentro da Diáspora
judaica foram surgindo, ao longo dos séculos, diásporas secundárias, que são,
portanto, diásporas de diásporas. Talvez o exemplo mais conhecido seja o dos
judeus sefarditas que, expulsos da Espanha em 1492,
se espalharam por todo o arco mediterrâneo e, posteriormente, pela Ásia e pela
América. Emigrantes judeus começaram a partir do Marrocos no início do século
19, em direção a vários países - entre os quais o Brasil, onde se estabeleceram
na Amazônia. E os judeus dos Açores foram um produto
da diáspora judaica marroquina, que por sua vez é tributária da diáspora sefardita.
O Arquipélago dos Açores situa-se no Atlântico Norte e é
composto por nove ilhas, divididas em três grupos, descobertas no século 16 por
marinheiros portugueses e, desde então, incorporadas ao território português.
Muito embora existam vestígios de cristãos-novos
no Arquipélago dos Açores desde meados do século 161, os sinais
judaicos hoje visíveis são os deixados pela comunidade de judeus marroquinos
que ali existiu entre o início do século 19 e meados do século 20. Esta é uma
história comum às ilhas do Atlântico que foram colônias de Portugal. Assim como
nos Açores, judeus marroquinos estabeleceram-se na Ilha da Madeira e em Cabo Verde, e vestígios
de sua permanência estão nos nomes de família ou nos cemitérios que resistem ao
tempo.
Os primeiros judeus marroquinos dos Açores chegaram, segundo consta, em 1818 à ilha de São Miguel,
provenientes de Faro e Gibraltar. Embora a Inquisição só tenha sido abolida
oficialmente em Portugal e nas suas colônias em 1821, a verdade é que,
nesta segunda década do século 19, já estava em vias de extinção. Por esta
época, também, judeus, vindos todos eles de Marrocos ou Gibraltar, voltavam a
estabelecer-se definitivamente em Lisboa e em Faro. Os cinco primeiros
judeus a chegar a Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, foram Abraham Bensaúde (Assiboni), Salom (Shalom) Buzaglo, Aarão Benhayon, Jacob Mataná, Isaac Semtob e Arão Aflalo. Outros os seguiram. Seu estabelecimento no
arquipélago não foi imediato. Na verdade, e compreensivelmente, todos os que
ali chegaram passaram os primeiros anos viajando, quer por motivos pessoais,
quer por motivos de negócio. Abraham Bensaúde
casou-se em Gibraltar em 1818 ou 1819 com Esther Amiel, e estabeleceu-se em Ponta Delgada apenas
em 1825. Mas seu filho primogênito, Joaquim Bensaúde,
nasceu em Oeiras, Piauí, Brasil, em 18192.
Embora não existam registros precisos do número de judeus
marroquinos desembarcado nas ilhas açorianas nos anos 20 do século 19, o que é
certo é que a compra de um terreno, em 1832, na ilha Terceira, para ali
estabelecer um cemitério israelita, denominado Campo de Igualdade, e a compra
de um prédio na ilha de São Miguel, para fundar, em 1836, a Sinagoga Sahar Hassamaim (Portões do Céu,
coincidentemente, o mesmo nome da sinagoga de Belém do Pará, fundada em 1823),
demonstram que já em 1840 o número de judeus nos Açores era considerável,
estimado entre 150 e 250 na ilha de São Miguel.
O comércio era a atividade principal desses imigrantes, e
realizava-se nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial
e Horta. Muito embora também comercializassem nas outras ilhas, poucos foram os
que nelas se estabeleceram. Já em meados do século 19 havia nos Açores cinco
sinagogas e três cemitérios judaicos, nas cidades de Ponta Delgada (São
Miguel), Angra do Heroísmo (Terceira) e Horta (Faial). A principal mercadoria
com que trabalhavam eram os tecidos da Inglaterra ou de Portugal, uma novidade
uma vez que a população local, ricos e pobres, tinha por hábito vestir tecidos
de linho de cultura local3. Esta inovação permitiu um enriquecimento
rápido e a ampliação para outros tipos de negócios.
O estabelecimento dos comerciantes judeus nos Açores não foi
pacífico. Primeiro, Portugal encontrava-se no período
que antecedeu as Guerras Liberais, opondo os Miguelistas
aos partidários de D. Pedro (imperador do Brasil e rei de Portugal). A
instalação dos Liberais (seguidores de D. Pedro) na ilha Terceira em 1830,
permitiu aos judeus que exercessem seu comércio de modo pacífico. Aliás, nesse
mesmo ano, Abraham Bensaúde requer ao Governo Liberal
sua naturalização, que lhe foi concedida em 22 de novembro de 1830, tornando-o,
oficialmente, o primeiro judeu de nacionalidade portuguesa depois do término na
Inquisição4.
Diversas famílias se estabeleceram e fizeram sua vida no
seio da população local, muitas delas aceitas na
melhor sociedade. Nomes como Abohbot, Anahory, Benarus, Bensabat, Bensaúde, Benayon, Cohen, Delmar, Levy e Zagury são os que maior
preponderância tiveram nas ilhas. Muitos outros por lá
passaram, acabando por se estabelecer em outras paragens. Em 1835, José Benaroch, Joaquim Assencal e Aron
Benedito (possivelmente Baruch) partiram da ilha
Terceira para o Brasil5.
De todas as famílias judias que aportaram nas cidades
açorianas, a que mais se destacou foi a Bensaúde. Os
filhos de Judá Assiboni6 (Sibony), que
morreu em Rabat, emigraram todos para os Açores e aí faleceram, tal como sua mulher, Reina Marrache,
que jaz no cemitério de Ponta Delgada, onde faleceu aos 102 anos de idade, em
1865. Abraham Bensaúde e Elias Bensaúde,
filhos de Judá, foram os únicos a deixar descendência e nesta contam-se um
presidente da República de Portugal, o fundador do Instituto Superior Técnico
de Lisboa (a melhor faculdade portuguesa de Engenharia), o redator de muitos
versos da fadista Amália
Rodrigues e o atual presidente da Comunidade Israelita de
Lisboa, entre muitos outros.
O historiador Pedro de Merelim relata, em
Os Hebraicos na Ilha Terceira7, que
as Senhoras Mariana Levy e Alegria Levy
se converteram ao catolicismo, o que originou vivas nos jornais locais. Porém,
os casamentos de membros da comunidade judaica com católicos foram raros na
ilha até meados do século 20. O mesmo autor relata o caso de Sara Benarus Levy, que teve uma
paixão, retribuída, por um nobre católico, nunca consumada pelo casamento, já
que nenhum dos dois queria abdicar da sua fé religiosa8. O que esses
episódios salientam são as boas relações que imperavam entre os membros da
comunidade judaica e a boa sociedade local.
Quem visita as ilhas açorianas
hoje, porém, encontrará poucos monumentos que atestam a passagem de judeus por
ali. Os cemitérios encontram-se em estado razoável;
sua manutenção está a cargo de diversos membros da família Bensaúde.
A Sinagoga de Angra do Heroísmo foi vendida em 2004, e a Sinagoga de Ponta
Delgada, embora inativa, é propriedade da Comunidade de Lisboa, e é mantida por
Jorge Delmar, que se considera o último judeu dos
Açores. O último lugar de repouso daqueles que desembarcaram,
viveram e negociaram nas ilhas açorianas é o mais tocante dos monumentos
judaicos das ilhas, o Campo de Igualdade, como é conhecido o cemitério de Angra
do Heroísmo, destacando a igualdade de todos os homens no momento da morte. Os
descendentes dos judeus açorianos acabaram por assimilar-se à população mais
ampla das ilhas, ou, por emigrar para Lisboa ou outros continentes,
hoje não mais existe uma comunidade judaica naquele arquipélago.
Contudo, sua história, e sua contribuição
para aquelas ilhas, e para Portugal, permanece na memória de seus
descendentes e dos judeus portugueses. É por isso que, nos campos de igualdade
das ilhas açorianas, aqueles que descansam em paz merecem que sua memória, que
sua lembrança, seja comemorada. ■
Nuno Wahnon Martins é
jornalista
1 - MERELIM, Pedro. Os Hebraicos na Ilha Terceira.
Angra do Heroísmo. Separata da Revista Atlântida, 1966. Pág. 7.
2 - ABECASSIS, José Maria. Genealogia Hebraica. Lisboa. Edição do Autor,
1990. Vol. ii, pág. 190.
3 - BENSAÚDE, Alfredo. Vida de José Bensaúde.
Porto, Litografia Nacional, 1936. Pág. 25.
4 - BENSAÚDE, Alfredo. Ibidem, pág. 44.
5 - MERELIM, Pedro de. Ibidem, pág. 143.
6 - Hassiboni é um nome que deriva do aramaico "Seba" que significa estar satisfeito. Não se sabe ao certo
quando é que a família adotou o nome Bensaúde, muito
embora devam tê-lo feito ainda em Marrocos, que significa "filho da abundância".
7 - MERELIM, Pedro de. Ibidem, pág. 155.
8 - MERELIM, Pedro de. Ibidem , pág. 83.
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