Passados sessenta anos do final da 2ª Guerra Mundial,
continuam as publicações que buscam entender o território de desumanização
que foi o Holocausto. Estrelas da Memória1 de antemão
nos surpreende positivamente, pois poucos são os trabalhos sobre a Shoá produzidos em Portugal que circulam no Brasil.
Assinam o volume os seguintes autores: Esther Mucznik, Jean-Pierre Guéno, Jérôme Pecnard, Ana de Frias,
António Melo, Nair Alexandra e Avraham Milgram. Contemplando um amplo espectro, a obra divide-se
em três partes. A primeira, "Crianças do silêncio: Memória de crianças
escondidas - 1939-1945", focaliza as crianças escondidas que sobreviveram à Shoá e que no presente têm entre 65 e 87 anos. Os
depoentes retornam aos anos entre 1940 e 1944 para reviver e reexaminar sua
experiência de sofrimento e abandono durante a 2ª Guerra Mundial. As crianças judias focalizadas viviam na França,
ou porque a família era francesa ou porque os pais eram foragidos de outros
países europeus e consideraram, erroneamente, que estariam a salvo das
perseguições antissemitas num país de lastro
democrático e libertário como a França.
No início de 1940, em Vichy, acionam-se as
medidas antijudaicas. Recenseadas e, em seguida,
despojadas de seus bens, marcadas pela estrela amarela, encaminhadas aos campos
de concentração, onde morriam de fome, de doenças, de maus tratos ou executadas
como vítimas da "solução final", das 72 mil crianças judias presentes na França
em 1939, 60 mil sobreviveram.
Dentre os sobreviventes foram recolhidos mais de oitocentos
testemunhos, organizados em ordem cronológica e apresentados na moldura das
etapas de uma viagem marítima. Uma vez reunidos, os testemunhos foram
recortados, de modo a privilegiar momentos distintos do contexto da guerra e
ângulos distintos dos sentimentos que acometiam as crianças. Assim, começam por
evocar as raízes familiares das crianças escondidas e os novos núcleos de
pertença a que foram
se ligando.
Numa segunda etapa, estão os testemunhos que relatam a separação que as crianças sofreram dos pais, a longa
espera a que são lançadas e as tentativas renovadas de reconstituição das famílias
nucleares.
Terminada a guerra, os testemunhos aludem a sentimentos
variados e antagônicos que marcam alguns reencontros das crianças com seu pai
e/ou mãe e o choque do não-reconhecimento, uma vez que a imagem do pai e/ou da
mãe que a criança carrega não coincide mais com a realidade. As mudanças
ocorridas com a guerra, as marcas dos campos de
concentração, provocam situações de desencontro, frustração, rejeição da
criança diante do pai ou da mãe transformados, tornados outros.
A primeira parte fecha-se com uma cronologia da 2ª Guerra,
antecipada pelos testemunhos que tratam do que representou
o Holocausto passados sessenta anos desde a libertação: as cicatrizes gravadas,
as lembranças das perdas, a necessidade da transmissão dessa história aos
descendentes.
A segunda parte, intitulada "Portugal-
porta da esperança", acompanha a entrada de refugiados da 2ª Guerra em
Portugal, a partir de 1939, quando se dá a invasão da Polônia, da
Tchecoslováquia e a ocupação da França pelos alemães. Desses refugiados, poucos
permaneceram no país, pois a política oficial portuguesa era a de franquear a
passagem, mas não a permanência em Portugal... Assim, essa parte reúne recortes de
entrevistas de alguns dos ex- refugiados que
conseguiram abrigo e salvação em Portugal. São
ressaltados e homenageados aqueles, como Aristides de Sousa Mendes - cônsul
português em Bordéus -, que correram muitos riscos
para salvar judeus e não-judeus que buscavam um visto para Portugal.
As entrevistas utilizadas nesta parte deram origem a um
filme documentário - A palavra às Testemunhas, de Esther
Mucznik, apresentado pela primeira vez no emblemático
Espaço Memória dos Exílios, no Estoril, a 7 de fevereiro de 2003.
A partir da ocupação da França pelos nazistas, em junho de
1940, Lisboa tornou-se
a única ponte entre a Europa, a África e as Américas. Dos portos portugueses
saíam os barcos (clippers) que faziam a junção com esses continentes, desde que se expedissem
numerosos documentos: visto de saída da França, visto de trânsito da Espanha,
visto do país que acolhia e, finalmente, a passagem marítima, confirmada e
paga. Dadas as dificuldades, muitos refugiados vinham
clandestinamente através dos Pireneus até a Espanha para depois entrar em Portugal. Os
refugiados, mesmo em Portugal, receavam a ameaça nazista. O
medo e a insegurança os perseguirá por muito tempo.
É curioso observar que as políticas raciais do nazismo não
atingiram Portugal em nível oficial, o que não significa que o país estivesse
imune ao antissemitismo. Muitos depoentes e
entrevistados dizem não terem sentido o antissemitismo
no país, embora alguns fossem obrigados a fazer a saudação nazista nas aulas da Mocidade Portuguesa,
por exemplo.
David Ben Gurion, como primeiro-ministro
do Estado de Israel, condecorou Aristides de Sousa Mendes com a medalha do Yad Vashem,
atribuída aos justos.
A terceira parte do livro - "Portugueses no Holocausto:
Entre o mal absoluto e a compaixão" - abre-se com uma introdução assinada pelo
historiador do Museu Yad Vashem de Jerusalém - Avraham
Milgram. Nela, é referido o fato de Portugal ter sido
dos últimos países da Europa a confrontar-se com o problema dos refugiados
judeus da Alemanha e da Áustria. O país não estava objetivamente equipado para
absorver uma grande massa de imigrantes, nem o regime salazarista considerava
positiva a política de absorção de imigrantes, pois eram considerados
divulgadores de ideias incompatíveis com o "espírito
nacional", além de provocadores de tensões sociais. Por isso, eram considerados
inimigos potenciais do regime autoritário português.
Portugal informa-se da situação dos refugiados judeus após a
anexação da Áustria e da violenta campanha desencadeada pelas ss contra os judeus austríacos, visando à sua expropriação
e expulsão do Grande Reich. Eram os cônsules, que, em geral, transmitiam ao
Ministério dos Negócios Estrangeiros (mne) a difícil
situação dos judeus. Assim, em 1938, ministros, chefes de gabinetes
ministeriais, chefes de departamentos e, principalmente, Oliveira Salazar,
tomaram conhecimento da forma como os nazistas resolveram a "questão judaica".
A pvde - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado,
subordinada ao Ministério do Interior, insistia desde 1935 em que se
estabelecesse uma política rígida quanto à concessão de vistos, sobretudo aos
polacos, russos, judeus e sujeitos sem nacionalidade conhecida. É a partir daí
que uma atitude ambivalente começa a surgir entre membros de carreira consular,
como o embaixador Veiga Simões, nomeado chefe da Legação de Portugal na
Alemanha. Este, embora se mostrasse contrário à retórica imperialista alemã,
cujas normas se opunham à concepção do Estado moderno, tinha uma posição em
relação aos judeus que passava pelo recorte econômico. Assim, os judeus
perseguidos célebres e ricos
eram "vítimas", enquanto os desprovidos de meios eram apenas
"judeus". Veiga Simões foi marginalizado e afastado de
seu cargo.
Já Aristides de Sousa Mendes foi processado por desobedecer proibições para a entrada de estrangeiros, em
geral judeus, antes e depois da invasão da França. Ultrajado e demitido de suas
funções consulares, perdeu o direito a seus honorários, o que o levou à ruína
econômica. Houve outros casos de insubordinação. Em 1941, soube-se que os
consulados de Portugal em Milão, Budapeste, Bucareste e Antuérpia concediam
vistos em passaportes de estrangeiros, contrariando as instruções superiores,
prova de que o desrespeito às ordens recebidas, apesar do estrito controle da
Polícia Internacional, fazia parte do quotidiano, ainda que em pequena escala.
Assim, a perseguição e o assassínio em massa dos judeus
produziram atitudes opostas: o mal absoluto e a compaixão. Como se explica esse
antagonismo? Como afirma Milgram, é mais fácil perguntar do que oferecer uma
resposta. Mas a compaixão pelo sofrimento dos judeus ocorreu com o monárquico
Sousa Mendes, o antimarxista Alfredo Casanova, o republicano Alberto da Veiga Simões, o liberal
Giuseppe Agenore Magno. Quer dizer, para além das
filiações políticas e das ideologias, os gestos humanitários se efetivaram.
A guerra terminou em 1945, mas a ajuda humanitária
prolongou-se para além dessa data, devido à errância
dos sobreviventes pela Europa. Doentes, traumatizados, sem ter para onde ir,
recebiam ajuda por meio de organizações. Em Portugal, ela veio do Joint Distribution Committee e da Hicem até fins de 1950. A procura de familiares e outros desaparecidos pôs em
circulação numerosas cartas de sobreviventes em busca do paradeiro de entes
queridos. A Comunidade Israelita de Lisboa (cil)
assume a responsabilidade pelo apoio aos refugiados judeus em Portugal. Já
comunidades inteiras de descendentes de portugueses desapareceram, tragadas
pela voragem nazista, como a de Amsterdã, ou de Salônica.
A última parte da obra reune
histórias de extermínio e de compaixão que permitiram salvar tantas vidas. Esse
cruzamento dá a medida do mal absoluto, mas também o testemunho da capacidade
humana de olhar para o rosto do outro e de sentir-se responsável por ele, como
diria o filósofo Lévinas. É importante observar que
Theodor Adorno2 é sutil na maneira como se manifesta a propósito da
memória. Ele não afirma que devemos nos lembrar sempre de Auschwitz,
mas sim que devemos fazer tudo para que algo semelhante não se repita. Ele não
defende as comemorações e as homenagens, mas uma luta contra o esquecimento. Se
essa luta é necessária, é porque não só a tendência de esquecer é forte, mas
também o desejo
de esquecer. Há um esquecimento natural, necessário à vida, dizia Nietzsche.
Mas existem outras formas de esquecimento negativas: denegar, recalcar, fazer
de conta que não se sabe. É na contramão delas que podemos situar o livro em
pauta. ■
Berta Waldman é doutora em Teoria Literária
e Literatura Brasileira; professora titular de Literatura Hebraica e Judaica na
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
1 - Estrelas da Memória. Lisboa, Edição Reborn, 2005, direção editorial e coordenação Esther Mucznik.
2 - Cf. o capítulo "O que significa elaborar o passado", de
Jeanne Marie Gagnebin, Lembrar escrever esquecer. São
Paulo, Editora 34, 2006, que retoma e discute a Dialética do Esclarecimento
de Theodor Adorno.
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