Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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Cortina de fumaça
Mais Tarde Você Entenderá, novo filme de Amos Gitai, que traz no elenco a incomparável Jeanne Moreau, contempla o embaraço e os silêncios que envolvem a história do colaboracionismo francês.
Por Orlando Margarido

Quando tinha 17 anos de idade, o cineasta israelense Amos Gitai passou um período em Paris com o arquiteto Munio Weintraub, amigo de seu pai. Durante um jantar, ouviu de um historiador francês uma defesa do Marechal Pétain (1856-1951), o chefe de Estado de Vichy, aliado ao nazismo. Para o estudioso, Pétain fora um verdadeiro patriota porque naquele momento da 2ª Guerra teria sido impossível opor-se aos nazistas sem o risco de destruir toda a França. A solução de colaborar com os alemães, portanto, teria sido a mais inteligente e eficiente. "Eu fiquei chocado com aquilo, claro, pois o destino dos judeus não tinha absolutamente lugar no seu raciocínio", relembrou Gitai, agora com 58 anos, por ocasião do Festival de Berlim de 2008. "O ponto de vista a partir apenas da França e dos franceses excluía mesmo os judeus do país, mas me abriu os olhos para questões que se mantêm problemáticas até hoje e atormentam as pessoas como fantasmas".

A lembrança daquele jantar seria renovada para Gitai em 2005, com o lançamento do livro de memórias de Jérôme Clément, vice-presidente do canal franco-alemão arte, intitulado Plus tard, tu comprendras e mais tarde adaptado à tela pelo diretor israelense. Realizado em 2007, o filme foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo no ano passado com a tradução literal Mais Tarde Você Entenderá. Não por acaso, a história pessoal do executivo, envolvendo sua família, interessou ao cineasta. Em 1987, Clément descobriu cartas e fotografias que apontavam serem seus avós maternos judeus, fato que nunca fora mencionado por sua mãe. Esta era ligada então à tradição católica da família do marido, herança passada aos dois filhos. O avô chegou a assinar um documento declarando ser ariano, mas o casal não escapou de ser encontrado pelos alemães numa pequena cidade do interior francês. Foi deportado para Auschwitz, onde morreu. Perplexo com sua descoberta, Clément tentou persuadir a mãe a conversar sobre o caso, mas ela se manteve em absoluto silêncio até a morte.

A investigação sobre o destino dos avós tornou-se uma obsessão para o executivo, que se lançou sozinho nesse trabalho, não contando nem mesmo com o apoio da própria irmã, defensora do silêncio da mãe e da incômoda declaração do avô. Essa determinação é uma das peças de resistência no filme. A outra se refere à forma como a França, no sentido do Estado, lidou com essa nódoa do passado, e quais foram os seus gestos no sentido de fazer justiça para com a comunidade judaica que sucumbiu sob o nazismo. "No decorrer dos anos, o governo francês tem mudado sua atitude em relação ao passado e aos crimes do regime de Vichy", aponta Gitai. "A história de Clément permite explorar essa relação da França com aquele momento, especialmente porque ele tinha na família o lado católico e o de imigrantes judeus".

O enfrentamento, no início do filme, entre mãe e filho, com tamanho tabu no meio a separá-los, contava com um agravante para que esse segredo fosse abordado. No mesmo período em que a verdade surgiu, acontecia o julgamento do comandante da Gestapo Klaus Barbie, conhecido como o "açougueiro de Lyon" por ter comandado a tortura e morte de centenas de civis no período nazista. Na primeira sequência do filme de Gitai, Rivka, a mãe interpretada pela veterana atriz francesa Jeanne Moreau, acompanha a audiência pela televisão, enquanto seu filho faz o mesmo no escritório, pouco depois de visitar o Memorial às vítimas do Holocausto em Paris. O processo ganhou apelo internacional e foi um desses momentos de revisão histórica na França aos quais o cineasta se refere. Mas é na parte final que ela se dá de forma mais significativa, com a atitude de Clément - que surge no filme renomeado como Victor Bastien, papel de Hippolyte Girardot - ao vasculhar, num arquivo do governo, documentos sobre seus avós. Trata-se do momento em que o governo do ex-presidente Jacques Chirac reconhece, em 1995, a cumplicidade francesa na deportação dos judeus e abre caminho para uma lei, promulgada seis anos depois, que permitiu mover um processo contra as autoridades do país e pedir indenizações.

As memórias de Clément poderiam ser mais algumas acumuladas na literatura dedicada à tragédia da 2ª Guerra Mundial, não fosse seu foco raro e peculiar e a própria figura do escritor. Clément é um nome reconhecido da cultura e da mídia francesa. Formado no Instituto de Estudos Políticos de Paris, atua não só na esfera da política cultural, com cargos já exercidos no Ministério da Cultura e no gabinete do primeiro ministro Pierre Mauroy, como integra a administração de corpos estáveis, a exemplo da Orquestra de Paris e o Teatro do Châtelet. Ao lançar Plus tard, tu comprendras, quinto livro numa carreira literária de ficção e filosofia, contribuiu com sua fama para, mais uma vez, cutucar a ferida do colaboracionismo.

Na época do mesmo Festival de Berlim, onde o filme foi apresentado, Clément lembrou que não se trata de uma história da guerra, mas sim de uma história atual, que aponta como gerações diferentes se esforçam para encarar determinados capítulos do passado. "É uma história do silêncio", sintetizou. "É sobre como os pais não quiseram falar sobre certas coisas, e sobre como falamos com nossos próprios filhos hoje".

Não foram apenas as lembranças de Amos Gitai e a de Clément que foram acionadas quando da adaptação do relato para as telas. Também as da própria Jeanne Moreau contribuíram para o rigor e a severidade com que o tema é tratado no filme. Aos 81 anos, ela lembra que também suas memórias de infância durante a ocupação nazista estavam ali representadas. No seu cotidiano de menina, a atriz viu muitas colegas carregarem a estrela amarela na roupa e pouco a pouco desaparecerem da escola. Essa passagem em sua vida é representada na fita por um dos momentos mais comoventes, quando sua personagem, Rivka, leva o neto a uma sinagoga durante uma cerimônia e lhe explica o significado dos símbolos, inclusive a estrela. A dificuldade na interpretação desse papel, além da proximidade com o tema, reside, segundo ela, nos silêncios de Rivka, "no que ela tinha mais a não dizer do que a dizer".

A atriz chegou a recusar o papel quando do primeiro projeto de adaptação, por achar o roteiro com um tratamento muito televisivo. Amiga pessoal de Clément, ela leu o livro e conhecia bem o drama da própria boca do executivo. Com a entrada de Gitai no projeto, com quem a intérprete trabalhou em seu filme anterior A Retirada, numa participação pequena, o enfoque mudou. Jeanne Moreau aceitou integrar o elenco. Isso não evitou, contudo, a permanência no projeto de uma sequência óbvia e desnecessária, que causa ainda mais estranheza por não se encaixar no estilo rigoroso do cinema de Gitai, marcado por títulos impactantes como Kadosh e Kippur. Trata-se do momento em que Victor, acompanhado da mulher (Emmanuelle Devos) e dos dois filhos, vão ao povoado em que seus avós foram presos. Ao conhecer a residência de onde foram levados, Victor imagina a cena, que Gitai reconstitui de forma por demais explícita e apelativa. O cineasta defende a necessidade de toda clareza e verdade possível quando se trata do Holocausto. Até chegar a esse momento, porém, o espectador já foi tomado pela gravidade do tema e pela maneira sensível como os atores conduzem uma passagem-tabu na vida de uma família, incluindo Dominique Blanc no papel da irmã. Mas cabe especialmente a Jeanne Moreau e a Girardot, mãe e filho, a tarefa mais delicada, num embate que representa um drama de muitas famílias marcadas pela mesma tragédia.

Orlando Margarido é jornalista e crítico de cinema


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Jeanne Moreau encarna a avó judia Rivka no filme de Gitai: atriz lembra bem o desaparecimento de colegas de escola judias quando da invasão nazista na França.
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