Em O que Resta de Auschwitz. O
Arquivo e a Testemunha, Giorgio Agamben, filósofo
e crítico italiano contemporâneo, desenvolve uma teoria sobre os problemas
éticos e jurídicos decorrentes da experiência do extermínio em massa de judeus
durante a 2ª Guerra Mundial. Como adverte desde o início da obra, não pretende
realizar um estudo histórico, pois "o problema das circunstâncias históricas,
materiais, técnicas, burocráticas, jurídicas... nas quais ocorreu o extermínio
dos judeus foi suficientemente esclarecido" (p. 19).
Agamben é autor de uma vasta obra,
em parte já traduzida no Brasil, e de um percurso intelectual riquíssimo. Este
volume insere-se numa trilogia, que compreende Homo Sacer
I: O Poder Soberano e a Vida Nua e Homo Sacer II: Estado de Exceção. Em sua excelente
apresentação ao volume, a filósofa Jeanne-Marie Gagnebin remonta às principais fontes e influências do
autor: Michel Foucault e Hannah Arendt.
A estes poderia se acrescentar Walter Benjamin, cuja obra Agamben
se encarregou de publicar na Itália.
Para Agamben, Primo Levi é o "tipo
perfeito de testemunha" e suas reflexões provêm, essencialmente, de dois temas
apontados nos textos de Levi: É Isto um Homem?, seu
texto mais conhecido, de 1947, e Os Afogados e Os Sobreviventes, de
1986, seu último livro. O primeiro tema é o da zona cinzenta ("uma
descoberta inaudita", comenta Agamben, p. 30), que
define o emaranhado de relações entre vítimas e carrascos nos campos e que
impede um julgamento moral (e jurídico) equilibrado, colocando em crise a ética
tradicional. Um segundo tema-chave é a relação da testemunha-sobrevivente com
os afogados (referência ao título da última obra de Primo Levi: Os
Afogados e Os Sobreviventes), que no jargão lúgubre de Auschwitz
eram chamados de Muselmänner ("muçulmanos").
Para Agamben, Levi é "o único que se propõe
conscientemente a testemunhar em nome dos muçulmanos, dos afogados, dos que
foram destruídos e chegaram ao fundo" (p. 66). Eles seriam - afirma Agamben, citando Levi - "as testemunhas integrais".
A aporia da situação da testemunha
é representada pelo autor pela distinção entre testemunha-sobrevivente e "testemunha
integral" - Muselman. De um lado estaria,
então, "o sobrevivente, que poderia falar, mas que não tem nada de interessante
a dizer" de outro, o desaparecido "é quem 'viu a Górgona',
quem 'tocou o fundo' e tem, por isso, muito a dizer, mas não pode falar..." (p.
124).
Há algo de profundamente chocante nessa afirmação. Da
perspectiva adotada por Agamben no livro, haveria a
necessidade de uma refundação da ética a partir de Auschwitz. A afirmativa de que o sobrevivente "não tem nada
de interessante a dizer" é intrigante, tendo em vista a proposta do autor de
uma Ethica more Auschwitz
demonstrata (p. 21), uma retomada sutilmente
irônica de um título de Spinoza, a Ethica
more geometrico demonstrata:
"... que se possam perder dignidade e decência para além de qualquer
imaginação... - essa é a notícia atroz que os sobreviventes trazem do campo
para a terra dos homens. E esta nova ciência torna-se agora pedra de toque que
julga e mede toda a moral e toda dignidade" (p. 76).
A "nova ciência", portanto, traz notícias da degradação e se
baseia na perda de humanidade, conforme minuciosa descrição de Agamben feita no capítulo central de O que Resta de Auschwitz, intitulado "O muçulmano". Curiosamente, o
autor afirma um vínculo indissolúvel entre categorias éticas e jurídicas, mas
nega à ética uma forma de responsabilidade independente: "A ética é a esfera
que não conhece culpa nem responsabilidade" (p. 33), contrariando a proximidade
entre livre-arbítrio e ética, um tema importante na tradição filosófica
ocidental.
O que Resta de Auschwitz dá
continuidade à obra anterior de Agamben, Estado de
Exceção, que é apresentado como a forma legal daquilo que não pode ter
forma legal sendo, ao mesmo tempo, expressão principal do Estado moderno
desde a Revolução Francesa e não representando somente um desvio momentâneo ou
uma ruptura transitória no desenvolvimento dos Estados democráticos.
As próprias democracias modernas, incluindo os Estados
Unidos, a cada momento manifestam essa vocação por meio de guerras não
declaradas ou de prisões ilegais. Essa reação do Estado reduz o cidadão comum à
vida nua, ao homo sacer, o homem excluído da
vida política e social, o qual, no direito latino arcaico, evocado por Agamben, não possuía mais direitos civis e cujo assassinato
não era considerado um homicídio.
Agamben examina os eventos
relacionados à 2ª Guerra Mundial sob esse prisma, e seu interesse, voltado para
a atualidade, é analisar o estado de exceção como medida do poder público
correspondente à ideia da situação limite: "O
paradigma da situação extrema ou da situação limite foi frequentemente invocado
no nosso tempo tanto pelos filósofos quanto pelos teólogos. Desempenha função
semelhante àquela que, segundo alguns juristas, corresponde
ao estado de exceção" (p. 56).
Essas reflexões de Agamben sobre a
relação entre estado de exceção e situação limite. revestem-se
de especial interesse no contexto posterior aos atentados terroristas de 11 de
setembro de 2001, com o desencadeamento de guerras não declaradas e o uso de
formas de repressão que ultrapassam certos limites, como o ataque a civis no
Iraque e no Afeganistão, ou mesmo como a morte do brasileiro suspeito de ser
terrorista, pela polícia londrina, em 2005.
Nos anos 1960, autores como Guy Débord e Pier Paolo Pasolini já
haviam chamado a atenção para a degeneração da política contemporânea, política
que Agamben, na esteira de Foucault, define como biopolítica: aniquilamento da vida humana, emergir
do poder do Estado como o antigo soberano, que podia decidir sobre a vida e a
morte. Para Agamben, o campo de concentração realiza
perfeitamente o estado de exceção: "Auschwitz é
exatamente o lugar em que o estado de exceção se converte no próprio paradigma
do quotidiano" (p. 57). Ainda que declare ter sido Auschwitz
um fenômeno único, o declara um paradigma, literalmente um modelo,
exemplo universalmente válido, uma ideia que
contradiz radicalmente a de um evento único.
Agamben não leva em consideração
os conceitos de ética e livre-arbítrio da maneira em que foram desenvolvidos na
tradição judaica. A unicidade de Auschwitz
corresponde à monstruosa tentativa de eliminar qualquer memória do povo judaico
e de sua ética que, junto à grega, é fonte da tradição ocidental. Pois da
concepção ética complexa e multifacetada do judaísmo deriva, entre outros, o
conceito de responsabilidade, o de livre-arbítrio e uma ligação indissociável com
a reflexão escrita, isto é, uma ética baseada na hermenêutica e na
interpretação. Ao contrário, em O que Resta de Auschwitz,
o conceito de ética está ligado unicamente ao mundo grego e a seus desdobramentos.
Agamben reflete sobre a ideia do testemunho e da testemunha a partir de um estudo
etimológico da palavra latina testis (testemunha)1, que possui duas origens etimológicas: testis de tertius (o terceiro, ou
seja: o testemunha que não está envolvido e pode testemunhar de forma objetiva)
e testis de superstes
(o sobrevivente, ou seja o que participou dos eventos, sobreviveu e esteve
profundamente envolvido, mas sua objetividade pode ser questionada). Essa ambiguidade (objetividade como tertius ou
envolvimento como superstes) tornou-se um
dilema em toda literatura que trata o tema do testemunho.
No livro de Agamben há uma grande
demonstração de erudição e de elegância, e uma ênfase, às vezes excessiva, no
exame etimológico dos termos gregos e latinos. Mas a etimologia, como afirmou
um conhecido linguista italiano, é uma ciência
aleatória. Pois se analisarmos o termo para testemunho em alemão encontraremos Zeuge, derivado do verbo zeugen
que significa conceber, gerar. A etimologia alemã, portanto, ofereceria todo um
outro espectro semântico a ser explorado e, no lugar da aporia
e da ambiguidade haveria, talvez, uma identificação
entre testemunha e criatividade literária.
Do ponto de vista da literatura, esfera absolutamente
familiar ao filósofo e crítico literário de primeira ordem que é Agamben, um texto é sempre produto de um testemunho,
reflexo ou resultado de alguma vivência ou experiência singular que pode ter
sido vivida ou pode ter sido imaginada pelo autor. O texto origina-se de uma
experiência que não necessariamente foi efetivamente vivida e que, antes de ser
representada, pode ser considerada inenarrável e inaudita.
O fato de que, em sua análise, Agamben
desconsidera o poema de abertura do livro É Isto um Homem? de Primo Levi, e escolhe, para análise, outro poema, "O
sobrevivente", certamente deriva de sua ênfase sobre os aspectos filosóficos do
problema, ligados às origens greco-latinas da tradição filosófica, em
detrimento de aspectos hermenêuticos, ligados à
tradição cultural judaica. Ainda que de fato o poema de abertura não seja
excelente do ponto de vista literário, há nele muitos indícios relevantes das
influências literárias e das predileções culturais de Levi, fundamentais para
uma reflexão sobre a questão da testemunha e do testemunho. O poema contém
várias referências à Divina Comédia, particularmente, ao famoso "Canto
de Ulisses", cujo comentário compõe um dos capítulos mais significativos do livro,
ele mesmo coalhado de outras referências a Dante.
Levi alterou o título do poema de abertura, inicialmente
denominado Salmo, para Shemá (em
hebraico) - uma mudança especialmente eloquente no
que toca seu vínculo com a tradição judaica. Além disso, há nesse poema algumas
alusões ao profeta bíblico Isaías, ou seja, nele se encontra a dupla
paternidade cultural e literária de Levi: um judeu italiano (influenciado e
ligado à literatura italiana) e um italiano de origem judaica, que redescobre
suas raízes.
Num conto do Midrash é
narrada a origem da tradicional oração judaica Shemá
Israel, evocada por Primo Levi no título do poema de abertura de sua obra
de testemunho: "O Midrash conta que Jacó
reuniu ao redor de sua cama todos os filhos e antes de abençoá-los fez-lhes
esta última pergunta: 'Meus filhos! Estais bem firmes na vossa crença num único
Deus?'. Como resposta, os filhos levantaram suas mãos
ao céu e disseram: 'Shema Yisrael.' ... A frase da Shemá
ficou desde então como a profissão de fé do judaísmo, seu princípio máximo e a
condensação de seus ideais. A última letra da primeira palavra de Shemá e a última letra da última palavra 'Ehad' do versículo quatro, se acham escritas na Torá em letras grandes. O exegeta Baal
Haturim faz notar que essas duas letras compõem a
palavra ed, o que significa testemunho"2.
É significativo que nesta narrativa, que
apresenta a origem da oração Shema Israel,
haja um vínculo com a palavra hebraica ed,
que significa testemunho. Como se ed evocasse
a relação que o testemunho deve ter com a memória e a rememoração, uma forma de
relembrar o que aconteceu e uma maneira de realizar de alguma forma um trabalho
de luto. Ao mesmo tempo - estimulados pela etimologia alemã zeugen
- nossa reflexão é levada a acentuar a forma criativa e nova de uma ética da
leitura e da memória.
O estudo de Agamben provoca essa
nova reflexão sobre o passado e suas influências sobre o presente, não tanto em
relação aos fatos quanto em relação aos efeitos sobre a filosofia, o direito, a
ética. Abrir a discussão sobre esses elementos, de forma franca e sincera, é
algo extremamente produtivo. ■
Andrea Lombardi é
professor de Literatura Italiana da UFRJ/ Departamento de Letras Neolatinas
 O que Resta de Auschwitz. O
Arquivo e a Testemunha
Tradução S. Assmann
Boitempo Editorial, 176 p.
R$ 36
1 - Talvez deveriam ter sido
indicados os devidos créditos, que remetem a E. Benveniste, citado em outras
partes do texto. Veja-se, a este propósito, o verbete testemunha de
Márcio Seligmann-Silva em www.ditl.info/arttest/art8233.php, que traz
exaustivas citações de Benveniste.
2 - A Lei de Mosés. Comunidade Sefardì
de Miami, Rabino Meir Mazliah
Melamed, p. 317.
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