O nome do pensador francês Edgar Morin
é bastante conhecido por suas obras nos campos da filosofia e da sociologia.
Sua origem, no entanto, é menos conhecida. Morin é um
pseudônimo; o verdadeiro sobrenome do autor, judeu de origem sefardita, é Nahoum. O fato de Morin ter deliberadamente ocultado seu sobrenome judeu ao
longo de sua carreira como pensador e escritor na verdade o coloca numa longa
linhagem de pensadores e autores que, buscando transcender as particularidades
judaicas e encontrar um lugar na cultura e no pensamento universais, se
tornaram prisioneiros de uma identidade dupla. E este tema dos judeo-gentios, para usar um termo cunhado pelo próprio Morin, cuja origem se situa no fenômeno do marranismo, na Península Ibérica e na América Latina, é,
justamente, o tema central de O Mundo Moderno e a Questão Judaica, longo
ensaio recentemente publicado no Brasil, e cujas posições, como em muitos
outros livros do autor, vêm polarizando as opiniões e gerando demoradas
controvérsias.
Há, portanto, um motivo bem concreto para que Morin, autor de mais de trinta livros sobre diversos temas,
tenha escrito este ensaio sobre o judaísmo. A obra foi publicada na França em
2006. Mas começou a ser gestada em 2002, ano em que Morin
foi co-autor do artigo "Israël-Palestine: Le cancer", no jornal parisiense Le Monde. A associação France-Israël
o processou por "apologia do terrorismo e do antissemitismo".
Morin foi acusado de trair os judeus por mostrar
compaixão pelos palestinos. Absolvido em primeira instância, mas condenado por
difamação racial por um tribunal de apelação, foi finalmente absolvido em 2006.
Abalado com a acusação de traidor, que creditou ao clima de
histeria política na França, devida ao conflito no Oriente Médio, Morin decidiu escrever este ensaio, como "reação à ofensa"
que sofreu. Para ele, além da questão Israel-palestinos,
a condição judaica no mundo moderno é extremamente complexa - e como tal deve
ser tratada, sem nenhum tipo de simplificação indevida.
O Mundo Moderno e a Questão Judaica pode ser dividido em duas partes. Na primeira, Morin trata da inserção dos judeus no mundo cristão, nos
últimos quinhentos anos. Ele cria a noção de judeo-gentio,
que lhe permite desenvolver uma reflexão bastante instigante, mesmo num ensaio
relativamente curto. Na segunda, em quatro artigos publicados em jornais
franceses entre 1989 e 2004, trata da questão Israel-palestinos
à luz das considerações desenvolvidas na primeira parte. O artigo que levou ao
processo não foi incluído, porque seus autores consideraram que ele mereceria
publicação à parte.
Morin credita a "surpreendente
sobrevida judaica" ao longo de séculos de diáspora às barreiras mútuas na
Europa entre cristãos e judeus, surgidas por motivos religiosos. Este ciclo de
fechamento cristão e de reclusão judaica foi rompido na Península Ibérica,
sobretudo no chamado Século de Ouro. Mas foi também na Península Ibérica que o
ulterior fechamento cristão levaria ao surgimento da dupla identidade marrana: uma interior, judaica e secreta; outra exterior, cristã e
oficial. E esta dupla identidade é a base de toda a
argumentação posterior de Morin.
Quando os marranos - e seus herdeiros culturais e
espirituais - voltam a viver num ambiente de abertura, sua criatividade floresce com base em dois componentes, não mais dissociáveis.
Aqueles que transcendem tanto o judaísmo como o cristianismo são denominados
por Morin pós-marranos ou judeo-gentios.
Em outras palavras, Morin considera todas as
diferentes combinações de identidade judaico-gentia moderna como decorrências e
descendências do marranismo.
Como dois primeiros grandes exemplos desta
condição, cita os pensadores Michel de Montaigne e Baruch
Spinoza. Montaigne, que seria descendente de uma família de convertidos de
origem hispânica, torna-se, na visão de Morin, um
modelo da prática do racionalismo e do ceticismo, que, sobretudo no capítulo
"Canibais" dos Ensaios, anuncia todos os judeo-gentios
do futuro, os quais, marcados pela perseguição, assumem a defesa dos oprimidos.
Já Spinoza, com sua ideia de divindade no seio da
natureza, vai mais além e representa a entrada em cena do intelectual sem
confissão. Morin considera que o pós-marranismo
está na origem do próprio humanismo europeu, ainda que nessa matriz cultural
somente seja lembrado o legado do mundo greco-romano.
A Revolução Francesa fez dos judeus cidadãos de seus países,
com igualdade de direitos, rompendo com a tradição que atribuía
direitos mais amplos aos cristãos nos países europeus. Ao longo do
século 19, os judeus efetivamente integram-se, como iguais aos gentios, em
grande parte das nações europeias. Seria o momento em
que a noção de povo judeu se atenua entre os judeo-gentios
integrados, e a marca judaica passa a restringir-se, sobretudo, à esfera
puramente religiosa: o judaísmo se transforma em "confissão israelita".
No entender de Morin, porém, o
mundo moderno, laicizado, erra ao apartar as noções de judeu ou cristão.
Para ele, é próprio dos judeus modernos unirem em si uma dupla identidade
complexa, cujas combinações dos componentes judaico e gentio são bastante
diversas. Vale a pena descrever algumas delas,
seguindo os exemplos citados na obra. Para aqueles com componente judaico mais
forte, o judaísmo deve ser visto como um exemplo às nações, mas não separado
delas. Para os plenamente integrados, vale a máxima: "Judeu em casa, homem lá
fora". Há aqueles com um componente gentio forte, como o escritor judeu
austríaco Stefan Zweig, que
via a si mesmo como um europeu acima de tudo. E no limite estão
aqueles que encontram a esperança na fé cristã, como Simone Weil.
Há também aqueles que, face ao antissemitismo, se
afirmam judeus, como Hannah Arendt,
que, no entanto, manteve laços com a cultura filosófica alemã e distância de
Israel. Há, ainda, correntes mais radicais, para as quais as particularidades
judaicas devem ceder espaço a um sentimento universal. Para Marx, o judeu deve
levar a termo sua identidade. Para os judeo-gentios revolucionários, a palavra de Saulo/Paulo é
posta no futuro: não haverá mais judeus nem gentios.
Morin constata que, apesar de um
declínio generalizado nas crenças religiosas no mundo ocidental - tanto entre
judeus quanto entre gentios ocidentais - a identidade judeo-gentia
permanece dupla: por um lado, ligada à cultura laica europeia;
por outro, à memória das adversidades do passado e à consciência da rejeição,
que, para Morin, são os últimos traços de diferença
em relação aos gentios. Para ele, os judeo-gentios
modernos carregam em sua diversidade a marca de um destino histórico comum. E é
justamente essa particularidade que os torna mais sensíveis à perseguição dos
outros.
O advento do nazismo e a posterior criação de Israel fazem
com que o componente judaico da dupla identidade volte a se fortalecer. O novo
sentido da palavra "judeu" encontra, em Israel, o sentido antigo: nação, povo e
religião, o qual se propaga também na Diáspora. E aqui começa a polêmica. Para Morin, após a 2ª Guerra Mundial, uma integração verdadeira
dos judeus se tornou possível: a Igreja deixou de lado seu antijudaísmo
secular e o antissemitismo europeu perdeu seu
crédito. Mas a identificação com Israel e a "obsessão por Auschwitz"
não a permitiram. Além disso, segundo Morin, o
martírio judaico é lembrado, "não só por dever de memória, mas também e cada
vez mais" para ocultar o sofrimento do povo palestino.
Para Morin, a atual postura de
força de Israel e sua defesa incondicional pela Diáspora levarão a uma
catástrofe. Ele crê que a "salvação do futuro" passa pelas minorias laicas de
ambos os lados e ataca o "particularismo superior de povo eleito", em nome da
universalidade da causa dos oprimidos, assumida desde Montaigne. Morin, como judeo-gentio, propõe
que se retome a fórmula do homem de dupla identidade, Saulo/Paulo, na busca da
humanidade comum. ■
Ricardo Besen é jornalista e historiador
 O Mundo Moderno e a Questão Judaica
Edgar Morin
Tradução: Nícia Adan Bonatti
Bertrand Brasil, 208 p.
R$ 35
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