Ela, que se sentia às vezes tão sozinha na Paris da
Ocupação,
tem agora a nossa companhia, dia após dia.
Sua voz, em meio ao silêncio daquela Paris, é tão próxima...
Patrick Modiano
A leitura de um diário deveria nos constranger a todos. Não pelo seu conteúdo, certamente, mas pelo ato em
si de violação de um relato íntimo, particular. No entanto, constrangem-nos, na
leitura do diário de Hélène Berr,
as sombras que, como asas da maldade, vão toldando, aos poucos, nossa visão.
Acompanhamos, como que paralisados, os passos de Hélène
para a morte. Sabemos de seu fim, sua sepultura nas nuvens. No entanto, somos
impelidos a seguir, com um nó na garganta, seus passos.
A Paris descrita pela jovem parisiense no início de seu
diário é maravilhosa. Entre a rua Soufflot
e o Boulevard Saint-Germain,
como ela, nos sentimos num território encantado. Da casa de Paul Valéry, que autografa o livro da alegre senhorita: "Ao
despertar, tão suave a luz tão belo esse vivo azul",
descobrimos suas leituras, romancistas e poetas de sua predileção e seus
lugares preferidos. Quanto mais lemos, mais beleza
encontramos: as aulas na Sorbonne, os amigos
com quem discutia literatura, política, ética, filosofia. Os amores
recém-descobertos, a luminosidade da horta, a luz do sol que faz com que o
coração pareça ter a consistência da cera... tudo
filtrado por uma rara consciência de que se está "amarrada a alguma coisa
invisível" e que a linguagem falha, a palavra não vem e que se escreve, ela
mesma confessa, é porque não sabe com quem conversar.
Esse mundo será, no entanto, pouco a pouco, eclipsado pela
sombra da ocupação nazista na França. Talvez, sem que ela saiba, o registro do
dedo ferido, de onde um médico retira algumas camadas de pele, seja o primeiro
indício, metafórico, da escrita dolorosa que está por vir. "Os alemães vão
ganhar a guerra", vaticina um de seus amigos. "Mas o que nos tornaremos se os
alemães ganharem?" ela, porém, pergunta em aflição. "Tanto faz! Não vai mudar
nada...", continua o amigo desiludido, cínico, a olhar as águas de um pequeno
lago. Então, nesse breve diálogo e na sua resposta final, descobrimos o quilate
com que é feito o espírito de Hélène: "Mas eles não
permitem que todos aproveitem essa luz e essa água!" Então, nós, tantos anos
depois das sombras que se abateram sobre a Cidade Luz, descobrimos por que
necessitamos, ainda, ler os diários, ouvir os depoimentos, exumar, enfim, os
textos que não podem morrer: somos corresponsáveis,
com esses testemunhos, de não deixar que a memória se apague e o horror vença por
esquecimento de suas barbaridades.
O relato jovial, com os olhos mergulhados em castanheiras em
flor, começa a se turvar a partir do dia 29 de maio de 1942. Nas medidas
impostas pelos alemães contra os judeus está a ordem
de uso, por todos os judeus a partir de seis anos de idade, da estrela amarela
em público, como signo distintivo. "Naquele momento", registra Hélène, "eu estava decidida a não usá-lo. Considerava uma
infâmia e uma demonstração de aceitação das leis alemãs. À noite, tudo mudou
novamente: acho covardia não fazer isso, em relação aos que o farão".
Percebemos, nesse pequeno trecho, a faculdade de estabelecer julgamentos morais
por meio de seus atos: a escolha consciente do uso da estrela, não obstante a
imposição das forças de ocupação. Seguimos, ainda, sua reflexão: "Mas, se o
usar, quero estar sempre elegante e digna, para que as
pessoas vejam do que se trata. Quero fazer do jeito mais corajoso". Percebemos,
assim, que a imposição se transforma, após esse momento, para Hélène, em sinal de distinção, não de discriminação.
Aos poucos, também, os cidadãos franceses de origem judaica
não poderão ocupar senão o último vagão do metrô. "Quando revejo esta semana",
escreve Hélène, "percebo que paira sobre ela [a rua]
um céu sombrio". Bens serão confiscados, direitos desprezados. Haverá
denúncias, pilhagens, Raymond Berr, pai de Hélène, é preso e enviado ao campo de concentração
temporário em Drancy, cidade poucos quilômetros ao
norte de Paris. Após o verão de 1942, quase todos os judeus nele internos foram
levados para Auschwitz. "Eu me sentia envolvida por
uma espécie de bruma", escrevia Hélène, "não falava
nada". Mas, afinal, qual foi o motivo da prisão do Sr. Berr?
"O inspetor afirmou que papai teria sido dispensado se sua estrela estivesse
bem costurada (...). Eu protestei. Mamãe também; ela explicou que a tinha
afixado com grampos e botões de pressão para poder usá-la em todos os ternos. O
homem continuou a dizer que foi isso que provocou o internamento: 'No campo de Drancy, elas serão costuradas'." A monstruosa
incompreensibilidade e a horrível falta de lógica de tudo não possuem
explicação.
Antoinette, mãe de Hélène, é assassinada numa câmara de gás em maio de 1944.
Levado depois a Auschwitz, Raymond Berr é assassinado no fim de setembro. Presa e enviada,
também, a Auschwitz, Hélène
consegue sobreviver por cerca de um ano. Em janeiro de 1945, é transferida para
Bergen-Belsen. O tifo havia espalhado a matança por
todo o lugar. Morriam centenas a cada dia. "Toda manhã", nos conta, perplexa,
uma Hélène etérea, quase uma sombra, "os alemães
acabavam de liquidar com revólver aqueles que já não conseguiam se levantar. Os
doentes, então, para não passar por isso, faziam-se sustentar, de pé, pelos
colegas sãos, para se manter enfileirados. Os alemães davam coronhadas nas mãos
daqueles que os seguravam. Os doentes caíam, eles os amontoavam em charretes,
tirando-lhes as botas e as roupas (...)." Doente de tifo, ela sucumbe em abril
de 1945, dias antes da libertação do campo pelos ingleses.
Talvez, se Anne Frank tivesse sobrevivido às atrocidades do
nazismo, teria sido uma jovem instigante como Hélène Berr. Ambas morrem em 1945, em Bergen-Belsen,
e da mesma doença. Seus destinos e diários conversam entre si. Suas vidas não
se perderam em vão. "Que este diário, um ato de sobrevivência, possa se
propagar infinitamente e alimente a memória de todos aqueles cujas palavras
foram apagadas", desejamos, com Marriete Job, sobrinha de Hélène ■
Lyslei Nascimento é
professora de Literatura Brasileira da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos
Judaicos da mesma universidade
 O Diário de Hélène Berr: um relato da ocupação nazista de Paris
Hélène Berr
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Editora Objetiva, 307 p.
R$ 39,90
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