Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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LETRAS E ARTES
Emmanuel Lévinas: a ética como filosofia da santidade
Dois novos livros, publicados no Brasil e na França, reveem o pensamento de um filósofo que via na responsabilidade desinteressada pelo outro a essência da humanidade e da espiritualidade.
Por Alexandre Leone

Sobre a relação entre Deus e a ética Emmanuel Lévinas (1907 - 1995) certa vez escreveu: "A ética não é o corolário da visão de Deus, ela é esta visão mesma. A ética é uma ótica. De modo que tudo o que sei de Deus e tudo o que posso ouvir de Sua palavra e dizer-Lhe razoavelmente, deve encontrar uma expressão ética". Essa reflexão faz parte de um artigo intitulado Une Religion d'Adultes (Uma Religião de Adultos), publicado na coletânea Difficile Liberté - Essais sur le Judaïsme (1963). Lévinas propõe-se a pensar filosoficamente sobre o monoteísmo, a religião dos adultos, como superação da religião sacramental - voltada para o ritual, e por isso mesmo não completamente separada da magia - e também como superação do ateísmo, sua antítese na medida em que nega a metafísica. Para além da religião sacramental e do ateísmo, o monoteísmo tem, segundo Lévinas, sua essência no ato ético. Pois, como afirma o filósofo, este não seria consequência do encontro humano-divino, mas antes o caminho para Deus. "A relação ética aparecerá, para o judaísmo, como relação excepcional: nela, o contato com um ser exterior, ao invés de comprometer a soberania humana, a institui e a investe."

O pensamento judaico de Lévinas coloca-se na tradição da Escola de Rabi Ishmael (século II), para quem o ser humano se aproxima de Deus por sua conduta neste mundo. "O conhecimento de Deus que podemos ter e que se enuncia, segundo Maimônides, sob a forma de atributos negativos, recebe um sentido positivo a partir da moral: 'Deus é misericordioso' significa: 'Seja misericordioso como ele'." Os atributos de Deus são dados não no indicativo, mas no imperativo. O conhecimento de Deus nos vem como um mandamento, como uma mitzvá. Conhecer Deus é
saber o que se deve fazer. Pode-se ver uma linha de continuidade entre os discursos éticos da profecia clássica, passando por rabi Ishmael e Maimônides, na Idade Média, até o racionalismo religioso da Haskalá (Iluminismo judaico) e do movimento do Mussar, que se desenvolveu no final do século 19 no judaísmo lituano, meio de onde provém Lévinas.

Nessa longa tradição de um racionalismo ético, a particularidade de Lévinas é formular uma ética em primeira pessoa, vinculada à noção de responsabilidade para com o outro que surge diante de mim. Somente no exercício da responsabilidade é estabelecida a proximidade. A atitude realmente humana diante o outro é dizer: "Eis-me aqui!" Para Lévinas, o rosto do outro, que surge diante de mim como epifania, me concerne na condição de me ordenar desde sua mortalidade. Contudo, por mais que o eu assuma a responsabilidade pelo outro, não posso exigir reciprocidade, pois, segundo Lévinas, a responsabilidade do outro é problema que compete a ele. Somos, desse modo, responsáveis com uma responsabilidade total, mesmo que não correspondidos.

Segundo Lévinas, esta conclusão pode até parecer demasiadamente idealizada, mas para ele não há relação plenamente humana sem ser desinteressada. O interesse reduz o outro a algo que eu posso pretensamente incorporar a mim, ao meu domínio, àquilo que Lévinas denomina "o mesmo" em oposição ao "outro". Hutchens denomina a ética levinasiana de ética da responsabilidade. Trata-se de uma abordagem ética profundamente exigente. Lévinas repete diversas vezes uma frase dos Irmãos Karamazov de Dostoievski: "Cada um de nós é culpado diante de todos, por todos e por tudo, e eu mais que os outros".

Recentemente foram publicados, no Brasil e na França, dois novos livros sobre Lévinas, com comentários a seu pensamento e entrevistas inéditas, em que o pensador fala, em retrospecto, de sua obra e dos tempos recentes depois da queda do Muro de Berlim. O primeiro deles é Emmanuel Lévinas: Ensaio e Entrevistas, de François Poirié, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva; o segundo é Entretiens avec Emmanuel Lévinas 1992 - 1994, de Michael de Saint-Cheron, publicado na França pela Editora Le Livre de Poche.

O livro de Poirié consiste de três partes: a primeira, uma sinopse do pensamento de Lévinas onde são repassados os temas principais da filosofia levinasiana, o "há" ("il y a") e a subjetividade, a ética como uma volta do sujeito para o outro e a responsabilidade. A segunda parte é uma extensa entrevista com Lévinas na qual o filósofo, já idoso, repassa sua vida e comenta brevemente vários aspectos de seu pensamento. E na terceira parte estão alguns textos curtos do próprio Lévinas.

A melhor parte do livro é a entrevista, na qual o filosofo esclarece a ligação profunda de seu pensamento com a tradição judaica e com a religiosidade, temas que geraram fortes debates na recepção de sua obra. Há aqueles que minimizam o aspecto judaico e religioso do pensamento de Lévinas, vendo-o, sobretudo, como um crítico da obra de Heidegger, que pensa uma ética baseada na subjetividade de seu pensamento. Para outros, a condição judaica e a religiosidade fundada na ética são o epicentro da filosofia levinasiana. Na entrevista, é o próprio filósofo quem esclarece que, apesar de sempre ter sido influenciado por sua condição judaica, foi somente com o amadurecimento de sua obra que esta influência foi-lhe aparecendo mais claramente. Ele afirma que mesmo os livros redigidos na sua juventude "já procediam daquilo que o judaico assinala ou sugere em relação ao humano".

A afirmação mais esclarecedora de Lévinas é aquela em que ele relaciona sua concepção de ética à noção de santidade. A espiritualidade levinasiana é definida por ele mesmo como uma espiritualidade não-mística, na forma de uma racionalidade bem lituana. Essa espiritualidade, como pode ser vista nos textos produzidos pelo movimento lituano Mussar, dos séculos 19 e 20, é voltada para a busca de Deus por meio do ato ético. No entanto, Lévinas afirma que "a palavra ética é grega". O Lévinas maduro prefere pensar a partir da noção de "santidade", que na tradição judaica está ligada à proximidade de Deus. Esta proximidade foi formulada no pensamento bíblico, rabínico e na filosofia do judaísmo na modernidade de modo diverso, num debate polifônico entre fontes tradicionais e autores modernos. Para Lévinas, "a situação em que Deus vem à ideia não seria a do milagre, nem a preocupação de compreender o mistério da criação". Esta preocupação com o mistério do (meu) ser que busca o Deus, da "onto-teologia", que está por trás da espiritualidade mística, não é a espiritualidade levinasiana.

É no movimento no qual o humano busca o além do ser que Deus, o outro por excelência, vem à ideia. A transcendência é vivida no abrir-se para o outro. O encontro com o rosto de outrem é de pronto ouvir um pedido e uma ordem, pois na sua mortalidade e nudez o sujeito depara-se com a responsabilidade por outrem. "A ética: o comportamento em que outrem, que lhe é estranho e indiferente, que não pertence nem à ordem de seus interesses nem àquela de suas afeições, no entanto, lhe diz respeito". Neste sentido, a responsabilidade para com outrem é fazê-lo passar antes de si próprio. A santidade, o ideal judaico da ética, está, para Lévinas, ligado à proposta bíblica: alimentar aqueles que têm fome, vestir os que andam nus, dar de beber aos que têm sede, abrigar os que não têm teto. A cortesia, a misericórdia e o amor são as expressões da santidade, que é a responsabilidade social sem culpabilidade.

O livro de Michael de Saint-Cheron, Entretiens avec Emmanuel Lévinas, 1992 - 1994, aprofunda-se ainda mais nessa filosofia da santidade de Lévinas. Saint-Cheron preocupa-se em apresentar a filosofia levinasiana desde seu elo com o pensamento judaico. No capítulo "Pour une philosophie de la sainteté" (Por uma filosofia da santidade), que é outra longa entrevista com o lúcido Lévinas do início dos anos 90, a kedushá, a noção judaica de santidade, é tratada de modo extensivo. Aqui, dois outros aspectos da ética como santidade vêm à tona: a ideia da ética como gratuidade absolutamente desinteressada nas relações inter-humanas, pois a santidade exclui todo interesse, e a noção de que a responsabilidade pelo outro torna o sujeito como que refém do outro. Vista da perspectiva da santidade, a situação de refém do outro é, para Lévinas, de uma dignidade suprema e dramática. À refutação de que esta noção de santidade seria mais cristã do que judaica, Lévinas responde ser justamente a literatura talmúdica formuladora da noção de que os homens santos, os kedoshim, são, antes de tudo, aqueles movidos por Hessed shel emet, o amor de verdade, a caridade desinteressada. O homem santo não é aquele que fez dois milagres comprovados, mas aquele que está disposto a morrer pelo outro.

Lévinas usa, de forma recorrente, o termo epifania, que tem profunda conotação religiosa, para referir-se ao aparecimento do rosto do outro. Epifania, do grego Eπιφάνεια, é a aparição, um fenômeno miraculoso, evento de revelação e iluminação. É um termo usado para descrever a experiência religiosa do encontro com Deus. É na epifania do rosto que Lévinas encontra a ideia de santidade.

Saint-Cheron indaga a Lévinas se ele se considera um pensador religioso. E o filósofo responde: "Se por religioso for entendido crente, não. Mas se por religioso for entendido aquele que ama seu próximo, então, me considero um homem religioso". O pensamento judaico de Lévinas encontra no universal sua relevância para as questões do mundo contemporâneo.

Alexandre Leone, mestre em Cultura Judaica pela USP, Master of Arts e rabino pelo Jewish Theological Seminary of América, Nova York; atualmente é o rabino do Centro Bnei Halutzim, em Alphaville, e doutorando em Cultura Judaica na USP. É autor do livro A Imagem Divina e o Pó da Terra - humanismo sagrado e a crítica da modernidade em A. J. Heschel, Ed. Humanitas

 


Emmanuel Lévinas: Ensaio e Entrevistas
François Poirié
Coleção: Debates, nº 309
Tradução: J. Guinsburg, Marcio Honorio de Godoy e Thiago Blumethal
Perspectiva, 168 p.
r$ 33



Entretiens avec Emmanuel Levinas
1992-1994
Michaël de Saint-Cheron
Le Livre de Poche, 187 p.
5,50 ?

 


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