Sobre a relação entre Deus e a ética Emmanuel Lévinas (1907 -
1995) certa vez escreveu: "A ética não é o corolário da visão de Deus, ela é
esta visão mesma. A ética é uma ótica. De modo que tudo o que sei de Deus e
tudo o que posso ouvir de Sua palavra e dizer-Lhe razoavelmente, deve encontrar
uma expressão ética". Essa reflexão faz parte de um artigo intitulado Une Religion d'Adultes (Uma Religião
de Adultos), publicado na coletânea Difficile Liberté - Essais sur le Judaïsme (1963). Lévinas propõe-se a
pensar filosoficamente sobre o monoteísmo, a religião dos adultos, como
superação da religião sacramental - voltada para o ritual, e por isso mesmo não
completamente separada da magia - e também como superação do ateísmo, sua
antítese na medida em que nega a metafísica. Para além da religião sacramental
e do ateísmo, o monoteísmo tem, segundo Lévinas, sua essência no ato ético.
Pois, como afirma o filósofo, este não seria consequência do encontro
humano-divino, mas antes o caminho para Deus. "A relação ética
aparecerá, para o judaísmo, como relação excepcional: nela, o contato com um
ser exterior, ao invés de comprometer a soberania humana, a institui e a
investe."
O pensamento judaico de Lévinas coloca-se na tradição da
Escola de Rabi Ishmael (século II), para quem o ser humano se aproxima de Deus
por sua conduta neste mundo. "O conhecimento de Deus que podemos ter e que se
enuncia, segundo Maimônides, sob a forma de atributos negativos, recebe um
sentido positivo a partir da moral: 'Deus é misericordioso' significa: 'Seja
misericordioso como ele'." Os atributos de Deus são dados não no indicativo,
mas no imperativo. O conhecimento de Deus nos vem como um mandamento, como uma mitzvá.
Conhecer Deus é
saber o que se deve fazer. Pode-se ver uma linha de continuidade entre os
discursos éticos da profecia clássica, passando por rabi Ishmael e Maimônides,
na Idade Média, até o racionalismo religioso da Haskalá (Iluminismo
judaico) e do movimento do Mussar, que se desenvolveu no final do século
19 no judaísmo lituano, meio de onde provém Lévinas.
Nessa longa tradição de um racionalismo ético, a
particularidade de Lévinas é formular uma ética em primeira pessoa, vinculada à
noção de responsabilidade para com o outro que surge diante de mim. Somente no
exercício da responsabilidade é estabelecida a proximidade. A atitude realmente
humana diante o outro é dizer: "Eis-me aqui!" Para Lévinas, o rosto do outro,
que surge diante de mim como epifania, me concerne na condição de me ordenar desde
sua mortalidade. Contudo, por mais que o eu assuma a responsabilidade pelo
outro, não posso exigir reciprocidade, pois, segundo Lévinas, a
responsabilidade do outro é problema que compete a ele. Somos, desse modo,
responsáveis com uma responsabilidade total, mesmo que não correspondidos.
Segundo Lévinas, esta conclusão pode até parecer
demasiadamente idealizada, mas para ele não há relação plenamente humana sem
ser desinteressada. O interesse reduz o outro a algo que eu posso pretensamente
incorporar a mim, ao meu domínio, àquilo que Lévinas denomina "o mesmo" em
oposição ao "outro". Hutchens denomina a ética levinasiana de ética da
responsabilidade. Trata-se de uma abordagem ética profundamente exigente.
Lévinas repete diversas vezes uma frase dos Irmãos Karamazov de Dostoievski:
"Cada um de nós é culpado diante de todos, por todos e por tudo, e eu mais que
os outros".
Recentemente foram publicados, no Brasil e na França, dois
novos livros sobre Lévinas, com comentários a seu pensamento e entrevistas
inéditas, em que o pensador fala, em retrospecto, de sua obra e dos tempos
recentes depois da queda do Muro de Berlim. O primeiro deles é Emmanuel
Lévinas: Ensaio e Entrevistas, de François Poirié, publicado no Brasil pela
Editora Perspectiva; o segundo é Entretiens avec Emmanuel
Lévinas 1992 - 1994, de Michael de Saint-Cheron, publicado na França
pela Editora Le Livre de Poche.
O livro de Poirié consiste de três partes: a primeira, uma
sinopse do pensamento de Lévinas onde são repassados os temas principais da
filosofia levinasiana, o "há" ("il y a") e a subjetividade, a ética como
uma volta do sujeito para o outro e a responsabilidade. A segunda parte é uma
extensa entrevista com Lévinas na qual o filósofo, já idoso, repassa sua vida e
comenta brevemente vários aspectos de seu pensamento. E na terceira parte estão
alguns textos curtos do próprio Lévinas.
A melhor parte do livro é a entrevista, na qual o filosofo
esclarece a ligação profunda de seu pensamento com a tradição judaica e com a
religiosidade, temas que geraram fortes debates na recepção de sua obra. Há
aqueles que minimizam o aspecto judaico e religioso do pensamento de Lévinas,
vendo-o, sobretudo, como um crítico da obra de Heidegger, que pensa uma ética
baseada na subjetividade de seu pensamento. Para outros, a condição judaica e a
religiosidade fundada na ética são o epicentro da filosofia levinasiana. Na
entrevista, é o próprio filósofo quem esclarece que, apesar de sempre ter sido
influenciado por sua condição judaica, foi somente com o amadurecimento de sua
obra que esta influência foi-lhe aparecendo mais claramente. Ele afirma que
mesmo os livros redigidos na sua juventude "já procediam daquilo que o judaico
assinala ou sugere em relação ao humano".
A afirmação mais esclarecedora de Lévinas é aquela em que
ele relaciona sua concepção de ética à noção de santidade. A espiritualidade
levinasiana é definida por ele mesmo como uma espiritualidade não-mística, na
forma de uma racionalidade bem lituana. Essa espiritualidade, como pode ser
vista nos textos produzidos pelo movimento lituano Mussar, dos séculos
19 e 20, é voltada para a busca de Deus por meio do ato ético. No entanto,
Lévinas afirma que "a palavra ética é grega". O Lévinas maduro prefere pensar a
partir da noção de "santidade", que na tradição judaica está ligada à
proximidade de Deus. Esta proximidade foi formulada no pensamento bíblico,
rabínico e na filosofia do judaísmo na modernidade de modo diverso, num debate
polifônico entre fontes tradicionais e autores modernos. Para Lévinas, "a
situação em que Deus vem à ideia não seria a do milagre, nem a preocupação de
compreender o mistério da criação". Esta preocupação com o mistério do (meu)
ser que busca o Deus, da "onto-teologia", que está por trás da espiritualidade
mística, não é a espiritualidade levinasiana.
É no movimento no qual o humano busca o além do ser que
Deus, o outro por excelência, vem à ideia. A transcendência é vivida no
abrir-se para o outro. O encontro com o rosto de outrem é de pronto ouvir um
pedido e uma ordem, pois na sua mortalidade e nudez o sujeito depara-se com a
responsabilidade por outrem. "A ética: o comportamento em que outrem, que lhe é
estranho e indiferente, que não pertence nem à ordem de seus interesses nem
àquela de suas afeições, no entanto, lhe diz respeito". Neste sentido, a
responsabilidade para com outrem é fazê-lo passar antes de si próprio. A
santidade, o ideal judaico da ética, está, para Lévinas, ligado à proposta
bíblica: alimentar aqueles que têm fome, vestir os que andam nus, dar de beber
aos que têm sede, abrigar os que não têm teto. A cortesia, a misericórdia e o
amor são as expressões da santidade, que é a responsabilidade social sem
culpabilidade.
O livro de Michael de Saint-Cheron, Entretiens avec
Emmanuel Lévinas, 1992 - 1994, aprofunda-se ainda mais nessa filosofia da
santidade de Lévinas. Saint-Cheron preocupa-se em apresentar a filosofia
levinasiana desde seu elo com o pensamento judaico. No capítulo "Pour
une philosophie de la sainteté" (Por uma filosofia da santidade),
que é outra longa entrevista com o lúcido Lévinas do início dos anos 90, a kedushá, a noção judaica de santidade, é tratada de modo extensivo. Aqui, dois outros
aspectos da ética como santidade vêm à tona: a ideia da ética como gratuidade
absolutamente desinteressada nas relações inter-humanas, pois a santidade
exclui todo interesse, e a noção de que a responsabilidade pelo outro torna o
sujeito como que refém do outro. Vista da perspectiva da santidade, a situação
de refém do outro é, para Lévinas, de uma dignidade suprema e dramática. À
refutação de que esta noção de santidade seria mais cristã do que judaica,
Lévinas responde ser justamente a literatura talmúdica formuladora da noção de
que os homens santos, os kedoshim, são, antes de tudo, aqueles movidos
por Hessed shel emet, o amor de verdade, a caridade desinteressada. O
homem santo não é aquele que fez dois milagres comprovados, mas aquele que está
disposto a morrer pelo outro.
Lévinas usa, de forma recorrente, o termo epifania, que tem
profunda conotação religiosa, para referir-se ao aparecimento do rosto do
outro. Epifania, do grego Eπιφάνεια, é a aparição, um fenômeno miraculoso, evento de revelação e
iluminação. É um termo usado para descrever a experiência religiosa do encontro
com Deus. É na epifania do rosto que Lévinas encontra a ideia de santidade.
Saint-Cheron indaga a Lévinas se ele se considera um
pensador religioso. E o filósofo responde: "Se por religioso for entendido
crente, não. Mas se por religioso for entendido aquele que ama seu próximo,
então, me considero um homem religioso". O pensamento judaico de
Lévinas encontra no universal sua relevância para as questões do mundo
contemporâneo. ■
Alexandre Leone, mestre em Cultura Judaica pela USP, Master of Arts e rabino pelo Jewish Theological Seminary of
América, Nova York; atualmente é o rabino do Centro Bnei Halutzim, em
Alphaville, e doutorando em Cultura Judaica na USP. É autor do livro A Imagem
Divina e o Pó da Terra - humanismo sagrado e a crítica da modernidade em A. J. Heschel, Ed. Humanitas
 Emmanuel Lévinas: Ensaio e Entrevistas
François Poirié
Coleção: Debates, nº 309
Tradução: J. Guinsburg, Marcio Honorio de Godoy e Thiago Blumethal
Perspectiva, 168 p.
r$ 33
 Entretiens avec Emmanuel Levinas
1992-1994
Michaël de Saint-Cheron
Le Livre de Poche, 187 p.
5,50 ?
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