Ano VII - número 28
Outubro 2009
 
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Para que serve a ficção?
Berta Waldman lê novo romance de Amós Oz, em que as verdades e mentiras da literatura e do negócio literário são o assunto central

"Tem a mentira que revela a verdade: isso se chama ficção."
Philip Roth, Fantasma sai de cena

 

Qual a menor distância entre dois pontos? Para Amós Oz, em Rimas da Vida e da Morte, não é uma linha reta, mas aquela que passa pelo labirinto, pela ruptura de expectativas e pela quebra dos paradigmas. Os leitores habituados a ler as obras de Oz estranharão o modo de construção deste livro. Aqui é abolida a linearidade narrativa que normalmente cabe ao autor - espécie de demiurgo - criar; afinal, é ele que responde pela ordem do relato.

Rimas da Vida e da Morte é um romance que se passa em Tel Aviv. Um escritor relativamente famoso está prestes a entabular uma conversa com seus leitores, num centro cultural comunitário, mas chega cedo. Para não estar presente muito antes do horário estipulado, vai até um café e começa a observar empregados e freqüentadores, imaginando uma história para cada um deles. Talvez o subterfúgio criado pelo escritor se deva, de imediato, ao desejo de escapar de um evento tedioso. Porém essa prática se estenderá, também, durante a palestra ministrada por um crítico literário inflamado, que analisa o livro do escritor e é tratado com irônico desdém pelo narrador, talvez pelo tom de certeza utilizado, talvez por querer abarcar a obra inteira em todos seus níveis e muito mais: " ... descobre influências, identifica fontes de inspiração, desnuda tramas ocultas, assinala diferentes planos e níveis, localiza associações surpreendentes, mergulha ao fundo da história, onde revolve o terreno e se entrincheira, e de novo e novamente volta à superfície, respira, exibe publicamente o tesouro que conseguiu desempoçar das profundezas, quebra códigos, e de novo mergulha e de novo volta à tona, desvenda mensagens camufladas/.../ E esses aspectos latentes são legítimos? Serão eles imanentes? Eles são coerentes? Sincrônicos ou diacrônicos?..." (pp. 21-22).

Desligado dessa enxurrada verbal, o escritor faz a pose de atento, interessado e introspectivo, quando seu interesse está na platéia, onde ele recorta feições, rostos, um topete, um busto numa blusa sem alças e, a partir de fragmentos, cria os personagens, dotando-os de uma história, de um destino. Assim, um escritor sem nome vai atribuindo nomes a seus personagens, ao mesmo tempo em que os insere num enredo.

Estamos diante de dois planos narrativos: o do escritor que vai ao centro cultural participar de um debate sobre sua obra, e o dos personagens que vai criando e que vão povoando novas histórias. Ecoam no fundo desse cenário os ditos, aforismos e quadrinhas rimadas de um poeta extemporâneo - Tsefania Beit-Halachmi -, (falso) autor de Rimas da Vida e da Morte, já esquecido pelos mais jovens, mas mencionado na palestra e retomado várias vezes, servindo de fecho ao romance, que irá justamente desmenti-lo: "Não há noiva sem seu par, e não há receber sem dar". Esse aforismo, também apoiado no tratado talmúdico Genesis Rabá, capítulo 8, que trata do motivo da união perfeita entre homem e mulher, remete a um mundo organizado, em que os pares se completam e onde há a partição de bens e afetos. Ora, esse mundo não existe. Afinal, como observa um personagem, somos todos filhos de Caim, pois Abel morreu jovem e não procriou. Talvez por isso a forma, neste romance, seja o lugar das heterotopias, que consistem na existência e coexistência de múltiplos mundos e espaços, contrariando a idéia de um mundo único de formas eternas, fonte de imitações e de verossimilhanças, que está na base dos romances lineares.

A personagem Ruchale Reznik também participa do colóquio de apresentação do novo livro do escritor no espaço cultural. Cabe a ela ler para o auditório quatro trechos deste livro. Sua leitura é padronizada e denota má compreensão do texto: ela lerá "como se nesse livro não houvesse senão ternura e compaixão. Até mesmo o trecho com o cáustico diálogo, que você escreveu como que a espalhar cacos de vidro, ela lê com brandura e muito sentimento" (p. 30).

Presenciando a crítica e a leitura equivocadas que fazem de seu livro, o escritor se pergunta por que está ali e cultiva reuniões daquele tipo. Para que escreve? Para quem? Que função exercem seus livros, e a quem eles trazem algum proveito?

Se há alguma sinceridade nesse questionamento metalingüístico, nem por isso a figura do escritor escapa à ironia demolidora do narrador: "Solidão, espiritualidade e melancolia marcam o semblante do escritor e ele acrescenta mentira atrás de mentira. À pergunta do público - por que escreve etc - dá respostas
que já dera mais de uma vez, algumas inteligentes, outras engraçadas e evasivas. /.../ ouve com estudada modéstia elogios que lhe são feitos /.../" (pp 34-35).

Essa sociabilidade que torna a literatura um bem de consumo muito distante do que se entende por criação é um dos grandes alvos da ironia do narrador, que destaca os lugares-comuns pelos quais passa o livro como mercadoria do ponto de vista daquele que escreve, daquele que ajuda a vender, daquele que compra, daquele que lê.

Misturando os planos que sustentam o romance e entrecruzando as narrativas, o leitor hesita: o escritor está tendo mesmo um caso com Ruchale, ou não? A certa altura, não se distingue mais se o que ocorre é o que se está narrando ou se o que se está narrando é a expressão da imaginação do escritor, o que equivale a dizer que os planos se mesclam e não se deve esperar que o romance forneça respostas absolutas. Em meio a dúvidas, o romance se fecha, fazendo um elogio da literatura como criação. É o processo de criação que o romance torna visível para o leitor ao radiografar o que se passa na cabeça do escritor, destacando a ficção como necessidade vital, como um parêntese que aproxima os homens e propicia experiências impossíveis de ter fora dela. Talvez por isso a estrutura escolhida para este livro seja a do labirinto, metáfora do tecido textual inesgotável.

 

Berta Waldman é doutora em Teoria Literária e Literatura Brasileira; professora titular em Literatura Hebraica e Judaica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 


Rimas da Vida e da Morte
Amós Oz
Tradução de Paulo Geiger
Companhia das Letras, 120 p.
R$ 31

 

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