"Tem a mentira que revela a verdade: isso se chama
ficção." Philip Roth, Fantasma sai de cena
Qual a menor distância entre dois pontos? Para Amós Oz, em Rimas
da Vida e da Morte, não é uma linha reta, mas aquela que passa pelo
labirinto, pela ruptura de expectativas e pela quebra dos paradigmas. Os
leitores habituados a ler as obras de Oz estranharão o modo de construção deste
livro. Aqui é abolida a linearidade narrativa que normalmente cabe ao autor -
espécie de demiurgo - criar; afinal, é ele que responde pela ordem do relato.
Rimas da Vida e da Morte é um romance que se passa em Tel Aviv. Um escritor relativamente famoso está prestes a entabular uma conversa com seus
leitores, num centro cultural comunitário, mas chega cedo. Para não estar
presente muito antes do horário estipulado, vai até um café e começa a observar
empregados e freqüentadores, imaginando uma história para cada um deles. Talvez
o subterfúgio criado pelo escritor se deva, de imediato, ao desejo de escapar
de um evento tedioso. Porém essa prática se estenderá, também, durante a
palestra ministrada por um crítico literário inflamado, que analisa o livro do
escritor e é tratado com irônico desdém pelo narrador, talvez pelo tom de
certeza utilizado, talvez por querer abarcar a obra inteira em todos seus
níveis e muito mais: " ... descobre influências, identifica fontes de
inspiração, desnuda tramas ocultas, assinala diferentes planos e níveis,
localiza associações surpreendentes, mergulha ao fundo da história, onde
revolve o terreno e se entrincheira, e de novo e novamente volta à superfície,
respira, exibe publicamente o tesouro que conseguiu desempoçar das profundezas,
quebra códigos, e de novo mergulha e de novo volta à tona, desvenda mensagens
camufladas/.../ E esses aspectos latentes são legítimos? Serão eles imanentes?
Eles são coerentes? Sincrônicos ou diacrônicos?..." (pp. 21-22).
Desligado dessa enxurrada verbal, o escritor faz a pose de
atento, interessado e introspectivo, quando seu interesse está na platéia,
onde ele recorta feições, rostos, um topete, um busto numa blusa sem alças e, a
partir de fragmentos, cria os personagens, dotando-os de uma história, de um
destino. Assim, um escritor sem nome vai atribuindo nomes a seus personagens, ao
mesmo tempo em que os insere num enredo.
Estamos diante de dois planos narrativos: o do escritor que
vai ao centro cultural participar de um debate sobre sua obra, e o dos
personagens que vai criando e que vão povoando novas histórias. Ecoam no fundo
desse cenário os ditos, aforismos e quadrinhas rimadas de um poeta extemporâneo
- Tsefania Beit-Halachmi -, (falso) autor de Rimas da Vida e da Morte,
já esquecido pelos mais jovens, mas mencionado na palestra e retomado várias
vezes, servindo de fecho ao romance, que irá justamente desmenti-lo: "Não há
noiva sem seu par, e não há receber sem dar". Esse aforismo, também apoiado no
tratado talmúdico Genesis Rabá, capítulo 8, que trata do motivo da união
perfeita entre homem e mulher, remete a um mundo organizado, em que os pares se
completam e onde há a partição de bens e afetos. Ora, esse mundo não existe.
Afinal, como observa um personagem, somos todos filhos de Caim, pois Abel
morreu jovem e não procriou. Talvez por isso a forma, neste romance, seja o
lugar das heterotopias, que consistem na existência e coexistência de múltiplos
mundos e espaços, contrariando a idéia de um mundo único de formas eternas,
fonte de imitações e de verossimilhanças, que está na base dos romances
lineares.
A personagem Ruchale Reznik também participa do colóquio de
apresentação do novo livro do escritor no espaço cultural. Cabe a ela ler para
o auditório quatro trechos deste livro. Sua leitura é padronizada e denota má
compreensão do texto: ela lerá "como se nesse livro não houvesse senão ternura
e compaixão. Até mesmo o trecho com o cáustico diálogo, que você escreveu como
que a espalhar cacos de vidro, ela lê com brandura e muito sentimento" (p. 30).
Presenciando a crítica e a leitura equivocadas que fazem de
seu livro, o escritor se pergunta por que está ali e cultiva reuniões daquele
tipo. Para que escreve? Para quem? Que função exercem seus livros, e a quem
eles trazem algum proveito?
Se há alguma sinceridade nesse questionamento
metalingüístico, nem por isso a figura do escritor escapa à ironia demolidora
do narrador: "Solidão, espiritualidade e melancolia marcam o semblante do
escritor e ele acrescenta mentira atrás de mentira. À pergunta do público - por
que escreve etc - dá respostas
que já dera mais de uma vez, algumas inteligentes, outras engraçadas e
evasivas. /.../ ouve com estudada modéstia elogios que lhe são feitos /.../"
(pp 34-35).
Essa sociabilidade que torna a literatura um bem de consumo
muito distante do que se entende por criação é um dos grandes alvos da ironia
do narrador, que destaca os lugares-comuns pelos quais passa o livro como
mercadoria do ponto de vista daquele que escreve, daquele que ajuda a vender,
daquele que compra, daquele que lê.
Misturando os planos que sustentam o romance e entrecruzando
as narrativas, o leitor hesita: o escritor está tendo mesmo um caso com
Ruchale, ou não? A certa altura, não se distingue mais se o que ocorre é o que
se está narrando ou se o que se está narrando é a expressão da imaginação do
escritor, o que equivale a dizer que os planos se mesclam e não se deve esperar
que o romance forneça respostas absolutas. Em meio a dúvidas, o romance se
fecha, fazendo um elogio da literatura como criação. É o processo de criação
que o romance torna visível para o leitor ao radiografar o que se passa na
cabeça do escritor, destacando a ficção como necessidade vital, como um
parêntese que aproxima os homens e propicia experiências impossíveis de ter
fora dela. Talvez por isso a estrutura escolhida para este livro seja a do
labirinto, metáfora do tecido textual inesgotável. ■
Berta Waldman é doutora em Teoria Literária e Literatura Brasileira; professora titular em Literatura Hebraica e Judaica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
 Rimas da Vida e da Morte Amós Oz Tradução de Paulo Geiger Companhia das Letras, 120 p. R$ 31
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